sábado, 18 de agosto de 2012




nascentes do bosque e becos sem saida


Não vou dividir o mundo em dois, ou três, ou quatro, ou qualquer outro número porque seria inútil, sem rigor, sem verdade, injusto. As classificações são úteis para os manuais de patologias, psicologias, teoiras e outros do género, que eu adoro (arrumar coisas em gavetas é uma nova atividade que me enche de alegria), mas que para aqui não são chamados.  Estou a falar dos «mundos interiores», tema mais do que escorregadio, nunca totalmente acabado, explorado, tema complexo e rico, além de privado e infinito. Classificar é, fora do devido contexto, um ato muito incompleto e atrevido, sobretudo, altamente pretencioso porque o faz.

mas se há coisa a que não resisto é classificar. perdoem-me mas tenho esta maniazinha de vez em quando. Assim, aprendo imensamente - e como se calcula é uma aprendizagem rica e nunca acabada - é destas que eu gosto - a observar, a sentir, a mergulhar no que se passa á volta. e passa muita coisa. dessas coisas que olho, são muitas as que com que me identifico. o tal mecanismo de espelho seguido do não menos maravilhoso, por ser tão mágico, mecanismo de associação. é automático. olho,oiço, sinto e todas essas imagens e sensações fazem dentro de mim um longo caminho. e essas mesmas sensações, sentimentos e emoções que à partida são dos outros, à sua passagem dentro de mim, arrancam e identificam bocados de mim mesma: eu fui assim, eu senti assim, eu sinto isto, eu vivi aquilo, eu tenho esta fantasia, eu tenho esta esperança, este desamparo, este medo, esta alegria. somos todos muito iguais. somos todods muito diferentes. e nessas pareceças e desigualdades, nessa união tão infinitamente rica, eu sinto-me renascer a cada instante. somos todos, somos um, somos um bilião, e todos vivemos esse cortejo imenso de emoções das mais variadas maneiras, nascidas e desenvolvidas nos mais variados contextos. somos diferentes.
essa possibilidade dediferença essencial é a mais pura criatividade. Chamemlhe divina, chamem-lhe o que quiserem, criatividade pura, libido milagrosa, magma de vida.

por isso o mundo é tão extraordinariamente mágico e maravilhoso. sem fundo. Mas sim, aconselho sempre a procurarem no fundo. Vale mesmo a pena, diria, atrevidamente mais uma vez, que é das mais essenciais coisas a fazer. Mergulhar no nosso mundo a fundo para poder mergulhar no dos outros. as descobertas nunca mas nunca acabam.

voltando atrás, divido o mundo em dois sem complexos, sabendo bem os riscos que corro. mas não resisto: as nascentes de vida, que nascem nas rochas do bosque verde, e as outras que são verdadeiros becos sem saída. Têm saída mas apresentam-se como becos sem saída.
falando de uma forma simples: há aquelas pessoas, aqueles encontros em que mais ou menos inesperadamente se revelam fiontes de vida. Estão muitas vezes em fases de renovação. Estão abertas á mudança, ou seja, neste momento unico em que vivemos, não conseguem nem querem ficar paradas. não resistem à intensidade das coisas. Falam das suas emoções! Emocionam-se, lembram coisas com verdade, lucidez, não fantasiam. querem aprender. São generosas, dão o seu afeto, o seu calor, o seu riso, a sua zanga, contam histórias, a transparência é coisa urgente.

por estas pessoas que entram na minha vida talvez empurradas pelo vento bravio das tempestades, por estas, eu sinto-me reviver com elas. acompanham-me todo o dia no meu pensamento. são parte essencial do meu prazer de viver.

depois, os becos sem saída: umas vezes enternecem-me, outras entristecem-me, deprimem-me, outras estimulam o meu interesse e prazer de mergulho, encanta-me os mistérios negros e cionzentos das suas vidas tão estranhas e barrocas. depende do momento.

Os becos sem saída querem falar a verdade que os seus corações pedem mas infelizmente não conseguem. estão mudas bem no fundo delas próprias. Querem falar mas não conseguem. ficam sérias, como uma superficie cinzenta de um lago imenso em que nada mexe, nada bule, nem uma filha de árvore existe por ali, a voar e a fazer mexer a água.
Alguns becos sem saída são secos, azedos, neles, nada cresce. Não dão dada a ninguém porque ninguém lhes deu nada (e esta pode ser a maior das tragédias, e ainda os faz, aos becos, sentirem-se culpados por não terem sido devidamente amados) a este becos tristes.

 oh meu Deus, queria tanto sentar-te ao meu colo e contar-te uma pequena história de encantar. Gostava de ser tua avó por minutos e poder voltar atrás e desfazer esse nó de tristeza, de silêncio forçado.

Os becos sem saída engoliram demais porque os calaram sem dó nem piedade. e assim cresceram mudos e sós. Há muita solidão e silêncio nos becos sem saída. O pior de tudo é não poder falar, é não saber falar, é querer dizer o que se sente e ficar simplesmente calado. ou falar de coisas sem peso, coisas mortas, inúteis. Com tanto que havia para dizer!

e depois, na verdade, há muitas outras coias na vida, muitas outras combinações extraordinárias de pedaços de gente, de nós.
agradeço por ter tanta gente na minha vida que me ensina, que me comove, que me faz rir, que me dão o prazer imenso de de me contar as suas incríveis histórias que são fontes de inspiração absolutamente divina.

agosto escaldante este, em que tanta coisa muda. agosto intenso este, em que somos inundados de emoções nunca antes vividas com tanta lucidez.

O momento é eterno, a vida eterna. um abraço imenso, imenso, imenso, imenso ás pessoas que dizem adeus e se preparam para partir neste agosto implacável. ficam no nosso coração para sempre.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012





Boas recordações, faz uma lista de boas recordações da tua vida, diz inesperadamente a minha explicadora de estatística. fico a olhar para ela, e de repente sinto-me apanhada numa armadilha. Melhor, sinto-me apanhada como se tivesse sete anos e tivesse sido chamada ao quadro preto na escola pela professora má. Daquelas professoras que mandam em nós e nos apanham em falso, sem a lição sabida. esta, por exemplo, é uma das minhas memórias antigas mas não, não é uma memória feliz. Pertence, isso sim, á lista das memórias más e sobre esta lista teria muito a dizer, como por exemplo, sobre os efeitos do sadismo de certas professoras-mães-avós-madrinhas-meninas que fazem bullying (como agora se diz, e bem)- e outras mulheres que tal, que se divertem a aterrorizar crianças que sentem mais frágeis e desprotegidas. Ainda oiço hoje algumas destas vozes ácidas, que nos olham no fundo dos olhos para ver se encontram medos escondidos por onde possam entrar. E encontram. e espetam o dedo e fazem uma voz que nos arrepia, fria, autoritária, insuportavelmente esmagadora. Estas vozes não são de geração espontãnea. Estas mulheres cresceram a ouvi-las e repetem-nas, tal qual as ouviram. Também elas foram humilhadas do alto de mulheres com poder, das suas avós desalmadas, das suas mães enlouquecedoras, das suas professoras frustradas, das suas amigas crueis. Gostam de brincar ao poder com crianças porque é fácil humilhar crianças. Para vingar as nossas próprias humilhações. Ponto.

Vamos agora às memorias felizes. Começo a puxar por um fio e elas aparecem de repente do nada, eu que julgava  que ia ser difícil lembrá-las. mas não, é fácil. E genuíno. Não é preciso inventar memórias felizes porque elas aparecem. Lembro-me de uma noite em que depois de jantar em casa da minha bisavó que tínhamos vindo visitar a Lisboa, me puseram a dormir num quarto ao lado da casa de jantar e eu, estranha na casa das cadeiras «douradas», cuja dona tinha já oitenta e muitos anos e falava com os «senhores» da televisão, que a conheciam, dizia ela, ligeiramente demente, ausente e muito doce, com o seu cabelo branco e olhar sonhador e perdido.

Adormeci neesa noite feliz como nunca. Não sei que idade teria mas lembro-me que adormeci enrolada em casacos e cobertores - era um sono de criança «improvisado», á espera que me levassem para casa mais tarde, quando os adultos na sala se cansassem da conversa.
Ouvia-os de longe, zonza de sono, conversar na mesa ainda posta, sem perceber nada do que diziam. Mas a cadência das palavras difusas, os risos e o tilintar dos pratos de sobremesa encheram-me de um conforto infinitamente feliz. Aquela familia, aquelas vozes em paz e em risos, davam-me uma segurança enorme. Olhei para o tecto onde se refletia a luz do corredor, aconcheguei-me nos cobertors da minha doce bisavó um pouco demente e ausente, e deixei-me ir, sossegada e feliz, para sonhos tranquilos.
Esta é uma das memórias mais felizes da minha vida. Uma noite, vozes e risos, a segurança da pertença ainda que fugaz, o conforto de poder adomecer em paz, sozinha mas acompanhada por dentro.

Depois, o Tramagal, a casa com jardim, patos e lago, as escadas para o sótão, a casa de banho de baixo, fresca, brilhante, onde tirávamos as sandálias sujas de terra do pinhal e lavávamos os pés pretos na água fria da torneira antes de ir almoçar. o quarto da minha avó, a cozinha cheia de luz. E felicidade infinita: a banheira branca no andar de cima, em frente á janela grande, o chão sempre morno, o banho de imersão sem tempo. Eterno. Uma coisa proibida em minha casa. Dezenas de anos depois ainda me vejo a dar um último mergulho na banheira antes de deitar uma olhadela para o pinhal. Imagem mágica que me leva para trás e que guardo como um tesouro.

Depois, o dia em que a Clara nasceu e eu tinha treze anos. Estava tão agitada que falava sozinha para o espelho. Tive medo da minha agitação, do meu contentamento excessivo que mais parecia uma crise de mania. Sabia que ia buscar um bebé ao hospital dentro de pouco tempo. Um bebé em casa, um bebé que eu até poderia ajudar a crescer, que me ia sorrir. A agitação era tanta que me fazia tremer. Meses depois, cheguei a casa um dia de tarde, e o bebé chorava inconsolável no colo da empregada. Tirei-lho dos braços e embalei a pequena, cabeça contra cabeça, junto á janela de onde se via o rio correr ao longe. Forjámos ali um pacto entre as duas. Ela acalmou-se, encostou-se a mim e os soluços foram parando. Fiquei contente porque consegui acalmá-la. Uf! esta criança confia em mim. Fizémos um silêncio cúmplice para sempre.

Percebi que podia continuar a escrever horas, meses, anos. o meu primeiro amor, os passeios nas praias desertas do Baleal, a minha primeira viagem para o estrangeiro, sozinha, conversas longas, as piadas da Teresa que me faziam rir até á lágrimas, mesmo nos momentos mais trágicos das nossas vidas. O nascimento dos meus filhos. A cara deles. as mãos pequeninas. os sorrisos. as palavras. O corpo quente do bebé e as mãos á volta do nosso pescoço.

Mil e uma histórias de amizade, os risos, a música, as conversas com o Nuno Fragoso e a nossa psicanálise caseira, em que jogamos ao «adivinha quem és», à descoberta «das tuas vicissitudes edipianas», ao «alimenta o meu narcisismo», ao «quem foge mais depressa da depressão», às «venturas e desventuras, esperança e desesperança, mágoas e alegrias da transferência», ás delicias «da capacidade imensa, eterna e omnipresnete da associação»,  ao «adivinha as minhas projecções», ao «faz de meu espelho», à «esperança e à fantasia que levam á loucura», à dureza «do teu princípio da realidade», ao identificar «dos nossos núcleos psicóticos» e a muitas outras, infinitas viagens ao fundo de nós próprios.
Ao almoço de sábado dos dinâmicos do frango e couscous. e a muitas outras coisas que aqui não cabem dizer porque, simplesmente, não há espaço.

Tudo isto chega para ser feliz? Não. Mas devia chegar, não? Sim, mas não chega.
Porquê? porque as memórias tristes também fazem uma falta imensa à nossa felicidade. Ajudam-nos a ir procurar as lágrimas congeladas, aquecê-las e fazê-las saltar dos olhos, o que não é coisa pouca - ficamos tão infinitamente mais leves! Nada mais delicioso que chorar uma perda, uma saudade, uma renúncia.

Não, renunciar é mesmo mau. Vai para além do suportável e é injusto.

Mas as memórias tristes são indispensáveis para a densidade. para a intensidade. para a possibilidade de estrutura. para o esforço da construção. para serem ultrapassadas, valorizadas, choradas. As memórias tristes casam bem com as memórias felizez, completam o puzzle complexo das nossas vidas.

E sim, também podemos rir delas, também. Rir é como dançar, faz-nos felizes.













sábado, 26 de maio de 2012

SHUTTER ISLAND, a travessia de chumbo

shutter island

numa noite de inverno, no ano em que começou a mudança da minha vida, fui ao cinema com a minha amiga Ana Pimentel, a companheira amiga daquelas noites frias de novembro, em que o programa preferido era sentarmo-nos nas salas de cinema na sessão da noite, a mastigar discretamente picocas enquanto o filme corria, e nós no escuro, nas asas do sonho, a deixarmos o tempo correr e o filme entranhar-se lentamente, tinhamos o tempo todo do mundo, suspensas num tempo diferente, num tempo fora do tempo.
Boa companheira, a ana tem aquela qualidade maravilhosa que é o silêncio quando as imagens nos transcendem e a intensidade é tão densa que não há espaço para palavras. depois do cinema dirigiamo-nos lentamente ao café da esquina e bebíamos em silêncio uma cerveja gelada, as duas muito distantes dali, ainda dentro do filme. não havia lugar para palavras porque as palavras estragam as coisas fundas. Shutter island ficou para sempre dentro de mim e aquela ilha distante volta vezes sem conta aos meus sonhos, á minha vida. Fiquei para sempre presa naquela travessia sob um céu de chumbo e um mar escuro. Os dois homens a tremer de frio sob as gabardinas pesadas. ele fumava, inquieto, às medida que a o barco se aproximava da ilha, Aquela travessia, vim eu a perceber mais tarde, era na verdade a travessia que eu me preparava para fazer na minha vida naquele preciso momento. O barco era o mesmo que me levava ao lugar mais sombrio da minha vida, sob um céu de chumbo ao lugar onde vivia o mistério da minha natureza profunda, uma ilha de loucos, onde a verdade e a fantasia dramática viviam lado a lado, separadas por um fio de nylon, transparente, como o das canas de pesca. Foi lá que me revi, eu própria, perdida nos corredores labirínticos da ilha-prisão-manicómio, em que a verdade não era a verdade, e a mentira ficava para sempre por provar. Ali revivi os meus piores pesadelos, na duvida constante de procurar saber quem era eu afinal. Foi lá que me revi na tentativa de sobreviver á dúvida. tenho ou não tenho razão? Sonhei ou tenho razão, estava a imaginar ou afinal a realidade é esta mesma, que conheço?
 A descoberta da gruta onde vivia a mulher em fuga, a mulher que sabia a verdade e que era a minha unica aliada naquele mundo de loucos, e que me dava razão. Foi ela que me fez perceber que afinal eu tinha razão e que não tinha sonhado. Foi ela que me ensinou a acreditar em mim, mesmo quando todos negavam a verdade. Ela tinha conseguido fugir da prisão infernal e tinha a coragem de viver em fuga mas em verdade.
Quando ele/eu foi apanhado e preparado para a lobotomia que o iria fazer conformar-se com o veredicto de louco e resignar-se a não fazer ondas, fumou o seu último cigarro em lucidez perfeita e encarou a a sua submissão à «normalidade» com imensa dignidade. Levantou-se, apagou o cigarro e dirigiu-se para a sala da cirurgia. Disse-lhe adeus em silêncio, entreguei-.lhe o meu coração e toda a minha solidariedade, e murmurei-lhe de longe: a verdade é só uma e eu estou do teu lado.
Quando mais tarde ele voltar da operação, pensei, o olhar vazio de quem perdeu a memória e já não sabe quem é, eu estarei lá, à sua espera e serei a única testemunha da sua razão. Não, não estavas a sonhar, não tiveste culpa, não, não estavas enganado. tinhas razão.
Depois de fazer a travessia no barco, e de confiar no meu único amigo que afinal me veio a trairm, a minha vida mudou para sempre. A verdade incomoda mas nunca, por nunca ser, deixa de ser a verdade. a verdade´e a nossa mais profunda liberdade. Neste tempo de tsunamis, mesmo quando tudo desmorona, a verdade é a nossa garantia de força, é a nossa âncora, é a nossa raiz que nos ancora ás profundezas da terra, planta perene e eterna, que nos segura ao fundo de nós próprios apesar  da terra e do universo inteiro tremerem.
Ana pimentel, aquela noite em que fiz a travessia que me levou á ilha dos loucos resignados à mentira, aos que enlouquecerem para esquecer a verdade, eu vi pela primeira vez a luz da verdade e da esperança.
Este mar de prata, as Berlengas ao longe, o sol que cai por entre as nuvens são a mais maravilhosa promessa de verdade.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

um dia dos diabos e um anjo infeliz - parte 1

o Pedro e a Sónia já não moram na Estalagem Popular na Rua da Rosa. Disse-me o Vavá, o Álvaro «chefe máximo» da dita Estalagem. Qaundo subo as escadas escalavradas, forradas a linóleo podre e esfarrapado, ele espreita-me lá do cimo, desconfiado com a porta entreaberta do «escritório» em ruínas e informa-me que o casal deixou o quarto da estalagem mas deixarm lá toda a sua bagagem. Pergunto-lhe se sabe do contacto deles e ele diz-me que não, e adianta: «também não lhe vou dizer mais nada porque não sei quem a senhora é».Percebo, penso com os meus botões. Peço um papel para escrever umas palavras ao Pedro, pedindo-lhe desculpa pelo silêncio prolongado, por dentro soluço de remorsos - hoje é o dia de todas as identidficações tristes, parece que a Lua entrou em Escorpião de tarde - eu logo vi que havia lágrimas fundas  e ressentimentos vindos da minha pré-história pessoal.
Enquanto eu e o Vává ensaiamos umas palavras, entre o desconfiado, o hostil e um impulso estranho de amizade súbita, entra um homem gasto, cabelos branco, boca que articula palavras estranhas, que fala sem parar mas que eu mal consigo ouvir. Do fundo da sala o Vává faz-me gestos com a mão, aponta para a cabeça e diz-me sem som: «é maluco, não ligue». Eu sorrio ao homem cinzento e teimosaente falador, digo qualquerr coisa, viro-me de costas e começo a escrever umas palavras num papel:« Querido Pedro, desculpe ter desaparecido sem aviso. Espero que você e a Sónia estejam bem...». Na sala desfeita entra um brasileiro também grisalho, a quem o Vavá acusa, assim do nada, de «não fazer nada, não procurar emprego e de passar o dia a dormir». o Homem fica zangado e responde-lhe torto. Por segundos tenho um pensamento negro: «e se estes dois começassem á pancada? e eu aqui, em pleno Bairro Alto, numa estalagem mais do que duvidosa, a escrever um bilhetinho enquanto dois matulões se pegam á estalada e quem sabe facada. hesito um bocado mas cntinuo a escrever, não tenho nada a perder. Esta é a sensação que me acomoanha todos os diss de há um tempo para cá e dá-me um sentimento de força e tranquilidade imensas: «não tenho nada a perder». Assim, continuo calmamente a escrever enquanto o brasileiroo sai da sala no momento em que pensei que ia tudo pelos ares.
O Váva explica-me que este homem «velho» e preguiçoso consome coca o tempo todo. Olho para ele e fico á espera de mais informações. A conversa interessa-me demais. Que lugar incrível. começo a gostar do Vavá que me vai contando que é angolano e que foi abandonado quando era criança, e que teve lutar pela vida porque ninguém o faria por ele. «Trabalho 24 horas por dia». Tem duas filhas a quem tem de sustentar, «coisa que ninguém fez por mim». é assim, não há outra coisa a fazer. «Não me vou matar, pois não?». Não Vavá, isso não.
Entra mais um grisalho na sala desfeita, a cheirar a alcool. «Olha o Maradona», diz o Vavá. «Também é psicólogo como a senhora, D. Ana». pergunto-me como saberá ele da psicologia -o pedro contou-lhe. Digo-lhe: «estou ainda a estudar». o Homem que cheira a alcool sorri. «Ele também é psicólogo», diz o Vavá. sim, sou, diz o homem, estou desempregado. Olho-o com atenção e ele começa a rir-se. Riem-se os dois de mim. «estávamos a brincar», dizem a rir. «Não sou nada disso».
O grisalho começa de repente a falar do Passos Coelho e da Finlãndia e da Dinamarca, e dos programas que passam na televisão. Outro louco. Dá-me para embirrar e  ele irrita-se: «já vi que não atinge o que eu digo». O Váva defende-me: «Olha, a Dona Ana é boa pessoa, veio aqui porque se preocupa com as pessoas, cala-te Maradona».
Peço desculpa ao Maradona. Não sei porque raio de coisa, escorre-me uma lágrima pela cara, e outra, e outra. Estúpida. Ridícula. O que se passa? é da sala toda partida? é do escritório escuro e da televisão aos berros? é do brasileiro da coca? é do Martadona que cheira a alcool? O Vavá parece ouvir-me os pensamentos: «Dona Ana, sabe, o Maradona é um solitário, e o brasileiro da coca também». O Maradona, que «gastou todo o dinheiro que tinha», como me informou o Vavá uns minutos antes, salta da cadeira e aperta-me a mão: «sou solitário mas gostei de conversar consigo. preciso de conversar. você é um anjo da guarda».
As lágrimas caem como um rio mas não me importo. Eles também não, acham normal, não parecem estranhar. Prepararo-me para me despedir. Eu, um anjo? um anjo no call-center, a vender seguros de automóveis. Um anjo com telefone e computador, a explicar o custo de uma «cobertura GPS». Estranha forma de vida para um anjo que ao fikm do dia prega numa sala imunda na estalagem Popular no Bairro Alto, à rua da Rosa.
Os homens sorriem para mim: «prometa-me que volta, D. Ana,» sorri o Maradona, a segurar-me na mão. Do fundo da sala, sentado num sofá verde escuro todo rasgado, o «chefe máximo» da Estalagem Popular, sorri-me com um sorriso de ouro. «Volte, precisamos de conversar, esteja semopre à vontade, foi um prazer, saia da porta, entre outra vez na sala».
«tenho que me ir embora mas volto, vamos fazer um grupo de conversa». «Prometa», diz o Vavá, espero cá por si. Vou-me embora pela escada abaixo, qual anjo que foge com o coração a bater forte. Volto, grito da porta, obrigada, eu volto. Juro que volto. Volto, sim, vou-me sentar na sala caótica para conversar com os solitários da Estalagem. Vou aprender com eles, adoro histórias. Não resisto.
Na rua, olho para trás e vejo a ilha das Berlengas, o casario da ilha, o mar, a areia, o sonho, o ar transparente e a brisa que vem do mar. Volto, sim.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Quantos mares tens na tua vida?




hoje falava com uma amiga sobre Baleal e Tavira, dois lugares que dividem a minha vida ao meio, no bom sentido, claro. Dividir no sentido de separar duas épocas, duas fases, dois ciclos. O primeiro deles cabe todo no Baleal e nele vivem memórias que são as minhas fundações. Naquele tempo (como vem no Antigo ou Novo Testamento, não sei bem)... naquele tempo viviamos em Santarém, uma espécie de Texas europeu do século XIII, uma mistura bizarra entre memórias medievais, igrejas romanas e góticas, e touros, campinos, patilhas, touradas e capotes à Alentejana (e não à ribatejana como seria de esperar), bailes de garagem com mini e maxi saias, a Abidis onde ensaiavamos a nossa vida social, eu a morrer de timidez, com camisolas de lã feitas á mão pela minha mãe, mais os bailes de Carnaval no Clube, o terror de ficar sentada toda a noite sem  que ninguém me viesse buscar para dançar, a cara a escaldar depois de um slow, a excitação do twist nas festas de anos só com raparigas, as noites húmidas e frias nas ruas de São Bento a jogar às escondidas, o episódio triste do livro do padre Amaro. Coisas de mãe que se preocupa e que delata - sem maldade e na maior inocência - os meus mais íntimos segredos às minhas amigas - e a tragédia do tanque dos Themudos, em que fui acusada de ser queixinhas, um trauma que me perseguiu muitos anos. Subi a encosta do monte a correr, os cabelos a pingar a água do tanque, sufocada de desgosto, deixando para trás a «piscina» pintada de azul com a água transparente que chispava por entre as árvores à medida que eu me afastava.
Quando chegava o mês de Agosto, trocávamos Santarém em chamas pelo mar do Baleal em fúria e pelas intermináveis nortadas que nos punham literalmente os cabelos em pé. Acampávamos numas casinhas alugadas, felizes da vida. Um dia convidei uma amiga engraçada, que jamais havia pernoitado em tão precárias condições, e que nos olhou entre o aterrorizado e o dó, e nos disse com voz de mel: «são tão engraçadas estas casinhas de pobrezinhos, são tão patuscas». Estragou o ambiente, a dita cuja. Também fiquei dividida e baralhada como ela, por um lado um bocadinho humilhada (casinhas de pobres?), por outro com vontade de a meter na primeira camioneta para Lisboa. Mas era difícil e escusado explicar-lhe o nosso fervor pelas casinhas «de pobres». Era dificil explicar porque era tão bom andar descalça todo o dia e chegar ao fikm do mês de Agosto com a pele dura na sola do pé. Também não era fácil entusiasmá-la pelo prazer de ouvir o roncar das avionetas no céu azul depois do almoço, ou sentar-me nos bancos de pedra em frente ao mar, de andar em cima dos chorões, de passear quilómetros nas Pedras Muitas, de me deitar na areia fria da praia pelas nove horas da manhã. Um milhão de coisas pouco óbvias para poder explicar porque gostava tantio delas, e muito em particular demonstrar os efeitos do feitiço tremendo de um mar selvagem de muitos verdes por entre as rochas,  rochedos e nas poças à beira mar, onde um dia uma das crianças Ortigão se ia afogando porque foi descendo o pequeno abismo com passinhos suaves sem que a mãe se apercebesse do perigo da transparência traiçoeira. O menino foi pescado por uma alma benevolente enquanto a mãe dizia «ai!».
O mar sempre ali tão perto. O núcleo duro de mim está ali.
Muitos anos depois, foi Tavira, uma explosão de calor e de luz. Atravessámos o Algarve para almoçarmos em casa de uns amigos, no meio das figueiras. Quando pus o pé no chão, assim que chegámos, e senti o calor sufocante na cara, jurei voltar sempre. O sonho das noites abafadas. Tomar banho á noite na água escura e morna, tomar banho de dia na água transparente e quente. A minha mãe telefonou-me e disse: «estou de casaco comprido de Inverno, aqui no Baleal, porque esta noite arrefeceu». E eu, do outro lado do fio: «não consigo respirar com este calor, as noites deitam fumo como as fogueiras...». E se eu vestisse o meu casaco de Inverno num Agosto de 40 graus em Tavira?

Tavira linda, brilha de dia e de noite, atravessamos a ria de barco ás nove da noite, de volta a casa, depois de nos arrastarmos todo o dia nos toldos uns dos outros, feitos com lençois que trazemos de Lisboa. Este ano as areias mudaram e na maré baixa a ria está seca, atravessa-se a pé. Só enche na maré cheia, e mesmo assim encontro trilhos no fundo e passo para o outro lado com água pela cintura. Acabaram-se os barqueiros, sou eu agora que conduzo a minha vida. Exagero, não é bem assim mas quase. Eu e o barqueiro andamos de braço dado por entre os pântanos de lodo preto, os caranguejos saem de todo o lado. Por segundos tenho medo, acho que vou gritar, mas já não há volta a dar. Andar em frente e depressa. O barqueiro sorri-me de longe. Decidiu ficar para trás.
Tavira é como um coração enorme, generoso, o seu céu é demasiado azul, o sol incendeia tudo. Cem igrejas e muita música. Os meus amigos, as nossas tardes, as noites, as manhãs tranquilas. As conversas intermináveis dentro e fora de água. Em Tavira, neste segundo ciclo da minha vida, fiquei mais perto de mim por várias razões. E ficar mais perto de mim, é isso mesmo: é estar mais perto do fundo, voltar ao mar ali tão perto, é reencontrar o meu lado «atlântico», mais «rochoso», é voltar a sonhar com algas, vento e falangetas de dinossauro arrancadas às falésias com milhões de anos.
No Baleal, a água é a da alma inquieta. Em Tavira, a água é a do útero, onde voltamos para dormir uma sesta tranquila.