no fundo do corredor abri uma porta e ouvi um barulho estranho; um zumbido? pode ser um zumbido? dentro de casa? na janela as vespas «acotovelavam-se», para cima e para baixo, a falarem daquela maneira arrepiante, sussurrada, afiada. Pensei voltar para trás mas o meu lado que sonha com perigos e confrontos, para mostrar não sei bem a quem de que sou capaz de coisas difíceis, e também ,porque não? uma pontinha de sadismo e destrutividade, fez-me voltar atrás e tirar um sapato, naquele quarto do fim do mundo, teias de areias e luz filtrada pela sombra escura das vespas. atirei-me a elas com raiva e com medo. E quando comecei a vê-las cair no chão, fiquei...não sei..... grande vitória a minha, vespas perigosas esmagadas no chão.
Voltei para trás e entrei no corredor enorme, pensei que vejo o mundo de dentro de uma casa, que é a minha casa, o meu mundo e a minha história. Há casas, não todas, que mexem comigo e me levam para trás, de repente, e esta tomou conta de mim rapidamente. Senti a sua tristeza densa, com um passado imenso dentro daquelas paredes, uma casa que se desmorona e que leva consigo toneladas de vidas passadas, uma casa que se esboroa, plena de silêncio e tristeza. Nos corredores moram ideias, memórias, lagrimas, riosos, esperanças e tudo. Acho que chamam por mim. Não me importo. A manhã começou mal, acordámos talvez todos entranhados daquelas memorias tristes coladas ás paredes dos quartos - que parecem ter mil anos e contudo dir-se-ia que ainda ontem foram usados, as camas e os cobertores parecem ter sido mexidos. Embirrar uns com os outros logo de manhã é delicioso. Promete. E assim, de hora a hora o tom sobe, e o ar carrega-se. Saímos, entramos, voltamos a sair, inventamos mil pretxtos para não discutir mas ao cair da noite, basta um mal-entendido e a casa explode. Cada um traz os seus medos, acusações, amarguras. Cada um conta a sua história e há ameaças extremas no ar. De repente, naquela fortaleza longe do mundo, sentados numa sala dourada e um piano caladissimo, atiramo-nos uns aos outros e eu, a grande passiva que assassinou mil vespas hás umas horas, voltei a deixar subir a fera que dormita, a mesma que pegou no sapato por nmedo e rauiva, e acuso. Acusar é bom porque me dá uma sensação de fazer justiça enfim, de ajustar contas tão antigas que nada têm a ver com o que ali se discute. Com todos, acontece o mesmo. para cima da mesa trazemos razões fúteis mas as nossas mágoas antigas fazem de nós crianças grandes. E por isso gritámos todos fúrias e loucuras talvez por terms dormindo num acasa moribunda. A sua morte anunciada acorda os nossos medos. Projecção, diriam os meus profs. Adoro esta palavra, uma projecção é como um espelho gigante, enorme, que trazemos dentro de nós, e que nos reflecte uns aos outros, que nos obriga a vermos o nosso pior lado no outro. Esse outro, que é apenas um pobre espelho, acaba por pagar por isso sem saber muito bem porquê.
Mas o melhor chegou, enfim. O rebentar dos medos limpou o ar. Ficámos de repente muitos juntos e felizes, ou pelo menos tão perto da felicidade quanto se pode estar numa casa-fortaleza que nem sequer está perto do mar mas no meio do alentejo distante. Um dia quero passar uma noite na fortaleza das Berlengas para sentir o que é o vento bravo na cara. Para ver o mundo através dos barulho do mar. Um dia quero fazer grupanálise em pleno oceano sóp para ver até onde nos leva a fúria das ondas. Um dia querto ver se o afecto renasce depois das mais duras tempestades, fechados na fortaleza. De manhã, a água à volta dela vai estar transparente até quilómetros de profundidade. Debruço-me na janela de pedra e vejo-me nesse espelho sem fundo. Só para ver o que acontece.
sábado, 5 de novembro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
a cada virar do berço segue-se um novo ciclo.
muitos anos ouvi uma história sobre mim, que a minha mãe contava alegremente, totalmente alheia ao facto de eu me sentir aterrorizada com a sua alegre narrativa. Claro que as mães, coitadas, principalmente as mães dos anos 50/60, não faziam a mais pequena ideia do que era psicologia, quanto mais psicanálise. Nem queriam saber, aliás. Naquela altura ser intelectual era um insulto, saber mais do que de panelas e criadas era, diria, uma verdaderira provocação ao pudor, ao recato, ao bom senso, á tranquilidade das tardes amenas passadas na cavaqueira antiga e despreocupada num mundo que desapareceu. Era um mundo tão tranquilo que se ouviam as moscas e as abelhas a esvoaçar preguiçosas, a bater nos candeeiros. Pois esse velho meteorito morreu para sempre e eu acho que vale a pena a aventura da sua morte, apesar dos incómodos perpétuos que causa. Porque é intenso este mundo. Complexo, rico, imenso, polémico, feroz, injusto, violento, vingativo, frio e cruel. mas eu adoro este raio deste mundo. O que eu gosto disto. Em cinquenta (e poucos...) anos, vivi cem. Nem mais. E pensar que foi por acaso que sobrevivi, o que eu teria perdido se assim não fosse. Assim, a história que me apavorava - não quer dizer que fosse apavorante - contava que na noite do meu nascimento, estando eu a dormir num berço alto, muito antigo, como se calcula, algures num estranho e bizarro hospital de Abrantes - ímagino mal esse lugar distante mas penso imensas vezes que era mal iluminado e pintado de branco sujo, já amarelado, e nos cantos havia baldes com gazes sujas e coisas horriveis assim do género. Pois a minha mãe dormia o sono dos justos nesse lugar escuro em que esvoaçavam morcegos pela certa, e a m inha querida avó cuidada do meu sono leve, ainda mal abada de nascer, ao que parece muito feia, revelou-me solicita, a minha mãe, que é franca e honesta, e não gosta de mentir. A maioria das vezes, digamos. Pois eu era feia mas por sorte «fiquei bonita» - que sorte, meu deus! - ao contrário das minhas irmãs, coitadinhas, «mais feiinhas». Nunca recuperaram do encarquilhamento do parto. Mãe, viva a honestidade, sim senhora, assim é que é.
Portanto, estava eu a dormir o sono de passarinho frágil acabado de arrancar às entranhas da mother, arrancar de uma forma, diga-se de passagem, inquietantemente moderna para a altura. Quer dizer, de cesariana feita com epidural. Naquela Abrantes do fim do mundo faziam-se cesarianas com epidural há mais de duzentos anos, imaginem. Com o maior sucesso. Que estranho!!!!!! um médico muito á frente do seu tempo, pegou numa agulha e enfiou-a nas costas da minha mãe e assim a anestesiou. E eu fui rapidamente sacada das trevas.
Dormia eu portanto, o sono dos recém-chegados quando terei emitido um gemido. E a minha avó que me cuidava e velava, lançou a mão ao berço para me embalar. Mas...azar, estava escuro, o pé do berço era altissimo e leve e assim ela sem querer virou-me o berço ao contrário, e eu caí da altura de metros, «por sorte», diz a minha mãe com ar satisfeito, enrolada em muitos cobertores porque era inverno. e em Abrantes quase neva. Parece que foram os cobertores que me salvaram.
esta queda infernal entranhou-se em mim, não sei como foi, estas coisas do psiquismo são inafalíveis. Acho que várias vezes me despenhei, como um padrão na minha vida que não muda. Não deixa de ser excitante.
a cada virar do berço segue-se um novo ciclo. estou, no momento, talvez no chão, enrolada por sorte num mionte de cobertores quentinhos. a preparar-me para levantar voo outra vez.
Assim, quando olho para esta fotografia aérea do baleal, sinto uma vertigem, um calafrio de felicidade. É assim como uma promessa de queda, mas de queda no azul do mar, do céu, do mundo. é voltar às origens, como se despenhasse de um berço incomodo e me atirasse no azul da eternidade. Querido mar.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
Uma viagem na rocha
Íamos de casacos de lã para a praia, muito cedo, como o meu pai gostava. E no Baleal muito cedo quer dizer 8 e meia, hora improvável para se estar na praia, em que o vento assobia ou o nevoeiro está cerrado. Assim, parece, tenho uma ideia, de que levavamos vários casacos e que os íamos tirando até ao meio dia, em que o sol costumava aparecer. Um dia a minha mãe contou a rir que estávamos todos em cima de uma rocha, a fingir que era um barco, e a Fau estava a chorar desconsoladamente muito perto do dito barco. Perguntou-lhe porque chorava e ela disse que já ele já tinha partido, estava em andamento algures no oceano e que não a tinham avisado porque o barco já estava «cheio». Não cabia mais ninguém. Inocente, a Fau. Ficou na areia a chorar até que alguém lhe disse: «miúda, aquilo não é um barco, é uma rocha e está parada». Ela, confusa, lá foi secando as lágrimas. «Não é um barco?».
Achei-me esperta diante da inocência dela, achei graça á sua credulidade, a chorar porque o barco partiu cheio e não a deixaram embarcar. As irmãs mais velhas podem ser assim. Quando são pequenas, pode acontecer que se sintam contentes quando as mais novas choram. Parece que faz parte da vida e há que aguentar, dizem os adultos que não percebem nada. A mais velha precisa de se sentir esperta, a mais nova ainda não aprendeu que o barco afinal «não partiu» e que as rochas não são barcos e que os miúdos triunfantes estão tão parados como ela, ali, na areia. Ainda acredita nas coisas coisa mágicas da vida, que o barco é afinal uma rocha alta e lindissima, firme na areia, apinhada de miudos contentes que acreditam que vão em viagem ao fim do mundo.
Grandes viagens se fazem nestas rochas imaginárias. Assim como se fazem na vida, depois, viagens que demoram anos a fazer, dentro de nós, fora de nós, ao lado de nós, por cima de nós, ao fundo de nós. Fazem-se milhões de viagens como se tivessemos um milhão de anos para viver. E temos. Um milhão de anos vividos, muitos desertos atravessados, muitos temporais enfrentados, por planaltos, montes e vales, em espaços «nunca antes navegados» feitos de rochas, pedras e vidros, algodão, céu e luz. A transformação tem vindo a cumprir-se, a par e passo, e agora temos uma pele nova em folha, uma alma refrescada. Vale muito a pena viver, que é como quem diz, viajar. Numa grande rocha alta, a cheirar a algas e a mar, a que um punhado de miudos um dia trepou, e se sentou no cimo, a velejar a dita rocha, em direcção ao fundo do horizonte.
Achei-me esperta diante da inocência dela, achei graça á sua credulidade, a chorar porque o barco partiu cheio e não a deixaram embarcar. As irmãs mais velhas podem ser assim. Quando são pequenas, pode acontecer que se sintam contentes quando as mais novas choram. Parece que faz parte da vida e há que aguentar, dizem os adultos que não percebem nada. A mais velha precisa de se sentir esperta, a mais nova ainda não aprendeu que o barco afinal «não partiu» e que as rochas não são barcos e que os miúdos triunfantes estão tão parados como ela, ali, na areia. Ainda acredita nas coisas coisa mágicas da vida, que o barco é afinal uma rocha alta e lindissima, firme na areia, apinhada de miudos contentes que acreditam que vão em viagem ao fim do mundo.
Grandes viagens se fazem nestas rochas imaginárias. Assim como se fazem na vida, depois, viagens que demoram anos a fazer, dentro de nós, fora de nós, ao lado de nós, por cima de nós, ao fundo de nós. Fazem-se milhões de viagens como se tivessemos um milhão de anos para viver. E temos. Um milhão de anos vividos, muitos desertos atravessados, muitos temporais enfrentados, por planaltos, montes e vales, em espaços «nunca antes navegados» feitos de rochas, pedras e vidros, algodão, céu e luz. A transformação tem vindo a cumprir-se, a par e passo, e agora temos uma pele nova em folha, uma alma refrescada. Vale muito a pena viver, que é como quem diz, viajar. Numa grande rocha alta, a cheirar a algas e a mar, a que um punhado de miudos um dia trepou, e se sentou no cimo, a velejar a dita rocha, em direcção ao fundo do horizonte.
sábado, 9 de julho de 2011
uma gota de água
«Eu, Mário Crespo, adolescente de 64 anos gosto de acreditar que depois da morte a vida não acaba e que nós, gotas de água, voltamos ao mar de onde viemos e fundimo-nos com ele para sempre». Não terão sido exactamente as palavras do jornalista Mário Crespo mas foi qualquer coisa assim que ouvi e que me deixou uma deliciosa tranquilidade. O homem é sensível, e gostei da maneira suave e determinada com que respondeu a Filomena Mónica, que mais uma vez declarou que não senhora, não acredita em nada de regressos de gotas ao mar imenso, porque com a morte acaba tudo. Acaba tudo. Tudo. Já a vi declarar este tipos de certezas de outras vezes, como uma espécie de desafio infantil, como um bater de pé teimoso, como uma adolescente rebelde de quase setenta anos, que teima que não acredita e que afirma isso de forma orgulhosa como se dissesse:«não tenho medo de nada, sou suficientemte forte para afrontar o medo da morte, do vazio, do nada, do fim da esperança, dos afectos, das ligações, das memórias, de tudo». Sou forte, diz ela, mas eu juro que lhe vejo um olhar assustado no fundo dos olhos azuis, eu diria que ela é ainda uma menina pequena, sozinha, desamparada, que mostra ao mundo que afronta o grande adeus da morte afirmando que depois dela nada nos espera, a não ser o nada e a terra sobre uma caixa de madeira onde ficará o que resta do nosso corpo.
Ela pode até afrontar o medo, até pode esconder a apreensão, e é legitimo que o faça. Todos temos direito a ter medo e cada um defende-se dele como pode. Mas sinto-me mais perto do «adolescente» Mário Crespo. Acredita que somos gotas de água. Também não faço esforço em me ver como uma gota de água - afinal o que sempre mais gostei de fazer foi mergulhar dentro dela, sentir-me fazer parte dela, sonhar com ela, nadar até ao fundo, rente á areia e sentir a sua frescura. Por isso, nada mais natural que ir ao seu encontro no momento em que tudo acabar. Não sei se será uma uma ilusão mas não, acho que não. Fundirmo-nos com um oceano maior parece-me justo, parece-me normal. As coisas, a vida, os afectos, aquilo de que somos feitos não merece acabar assim e de repente cairmos na escuridão profunda dos tempos e acabarmos feitos pó, sem memórias, sem passado, sem presente, sem nada. O afecto, só por si, não nos deixa acabar feitos esqueletos sem história. Ficamos nos corações dos outros e os outros ficam no nosso coração. O afecto que nos junta é prova de eternidade. Essa é a nossa eternidade. As palavras, as conversas, os risos e as cumplicidades, as alegrias e as tristezas fazem parte de uma ordem maior, subtil, muito mais fina e imensa do que uma caixa de madeira que desce á terra e nos remete ao esquecimento, ao nada. Eu sou adolescente, Mário Crespo. Acredito que sou uma gota de água, sim, e que no fim talvez tenha essa sorte e alegria imensa de me diluir e descansar para sempre no meio do mar imenso, afinal o mar onde molhei os pés desde que me lembro, onde nadei toda a minha infãncia e juventude, o mar que me ia engolindo várias vezes, das ondas altas de Outubro que me fizeram tanto medo. Mas afinal sinto que é ali que pertenço e que vai ser bom deixar-me diluir lentamente e juntar-me a todas as memórias de todos os tempos, para sempre.
Ela pode até afrontar o medo, até pode esconder a apreensão, e é legitimo que o faça. Todos temos direito a ter medo e cada um defende-se dele como pode. Mas sinto-me mais perto do «adolescente» Mário Crespo. Acredita que somos gotas de água. Também não faço esforço em me ver como uma gota de água - afinal o que sempre mais gostei de fazer foi mergulhar dentro dela, sentir-me fazer parte dela, sonhar com ela, nadar até ao fundo, rente á areia e sentir a sua frescura. Por isso, nada mais natural que ir ao seu encontro no momento em que tudo acabar. Não sei se será uma uma ilusão mas não, acho que não. Fundirmo-nos com um oceano maior parece-me justo, parece-me normal. As coisas, a vida, os afectos, aquilo de que somos feitos não merece acabar assim e de repente cairmos na escuridão profunda dos tempos e acabarmos feitos pó, sem memórias, sem passado, sem presente, sem nada. O afecto, só por si, não nos deixa acabar feitos esqueletos sem história. Ficamos nos corações dos outros e os outros ficam no nosso coração. O afecto que nos junta é prova de eternidade. Essa é a nossa eternidade. As palavras, as conversas, os risos e as cumplicidades, as alegrias e as tristezas fazem parte de uma ordem maior, subtil, muito mais fina e imensa do que uma caixa de madeira que desce á terra e nos remete ao esquecimento, ao nada. Eu sou adolescente, Mário Crespo. Acredito que sou uma gota de água, sim, e que no fim talvez tenha essa sorte e alegria imensa de me diluir e descansar para sempre no meio do mar imenso, afinal o mar onde molhei os pés desde que me lembro, onde nadei toda a minha infãncia e juventude, o mar que me ia engolindo várias vezes, das ondas altas de Outubro que me fizeram tanto medo. Mas afinal sinto que é ali que pertenço e que vai ser bom deixar-me diluir lentamente e juntar-me a todas as memórias de todos os tempos, para sempre.
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