quem somos? somos o que fazemos, o que dizemos sem pensar, o que pensamos sem saber, o que amamos, por onde vamos, para onde vamos, o que sonhamos, como nos enraizamos, como voamos, como nos entregamos. No Baleal, há muitos anos, sentava-me em cima das rochas e ficava a olhar o mar lá no fundo, verde, verde escuro,verde mais claro, a espuma, depois outra vez verde escuro, depois o barulho da água funda a bater nas rochas. Naquelas estranhas rochas inclinadas, cinzentas, cortantes, meio enterradas na ágvua verde escura e funda. O meu pai contou-me que a ilha inclinada em talhadas era consequência de um terramoto, maremoto, vulcão, não sei. Acho que do fundo do mar se abriu um buraco enorme e deitou em jacto uma massa cinzenta a ferver e que esta caiu aos bocados no mar, como filas e filas de sanduiches de pedra. Ou então, a ilha estava sossegada no meio do mar, e a terra tremeu no fundo dos fundos e a ilha abanou, estremeceu, baralhou-se e «voltou-se», inclinou-se e assim ficou para sempre em fatias imensas, a entrarem na água escura em viés. Não sei porquê, mas aquela coisa da ilha entrar inclinada no mar emocionava-me ao máximo. Ficava ali horas e horas a ver as «fatias» perderem-se no verde das ondas, a imaginar esse primeiro tempo dos tempos, em que nada existia. E numa noite, subitamente, a ilha caiu de costas, mergulhou entortada. Milhares de anos depois, ali estava eu a olhar. Ainda estava tão longe de tudo. Ainda estava tudo para começar. Um dia uma mulher ia no barco com o marido marinheiro e o ferro com que apanhavam os chocos e os percebes caiu ao mar, sem que ela fosse a tempo de o agarrar. Ouviu-se um grande borborinho na ponta da ilha: a mulher atirara-se ao mar para salvar o ferro enorme. Estava toda vestida e o peso da roupa puxava-a para baixo - ela mal sabia nadar mas não largou o ferro. Cá em cima das rochas, as pessoas juntavam-se e pediam-lhe que o largasse para não ir para o fundo com ele. mas ela não ouvia nada, jurou que não o largava e ia avançada no abismo verde escuro gelado, sem largar o ferro comprido, o vestido agarrado às pernas, com os limos negros a prenderem-lhe as braçadas. Alguém lhe deitou uma mão e ela acabou por subir para o barco. Estava exausta, encharcada, o cabelo a pingar.
Pensei quanta coragem era preciso ter para mergulhar assim naquele mar tão intenso, tão selvagem, mas a mulher era da terra, vivia ali há muito tempo e estava habituada às agruras da vida, ao sol que lhe queimava a pele, ao sal que lhe gretava a boca, ao cabelo que se colava ao pescoço com a humidade da maresia. Tive medo por ela e por mim. Imaginei-me no lugar dela, pensei que às vezes não há saída e que a vida é dura e não há como fugir aos confrontos com o mar agreste que quase nos leva a vida. Muitas vezes não há mais nada a fazer senão mergulhar e arriscar tudo, sem ter tempo para pensar. Somos empurrados para a frente. Somos mais verdadeiros e inteiros, estamos mais perto de nós, em situações limite. Quando tudo corre bem, não temos grande intensidade. Arrastamo-nos agradavelmente entre duas chávenas de chá, uma torrada, duas conversas, umas brincadeiras e risos, tudo rola porque a vida é fácil,e ás vezes é tão fácil que nos fartamos da facilidade e inventamos insuportáveis dificuldades, coisas absurdas e pequenas, irrisórias, frivolidades imensas, confortos mornos que nos roubam a alma.
Quando sem querer caímos do barco e mergulhamos nos abismos verdes e gelados, e o mundo se vira do avesso, agimos como um todo, em bloco. É o momento do tudo ou nada. Tudo o que não é verdadeiramente importante fica para trás. Ficamos mais perto do centro, somos mais nós, levados às cegas pelas correntes da água. É a altura de nos entregarmos, voarmos, deixarmos os pensamentos terem vida própria, livres e nos levarem onde nos leva a liberdade.
Pensando bem, tudo isto é verdade, mas hoje gosto de me sentir a salvo, quentinha, na sala, a escrever o que me vem á cabeça, como se o mundo coubesse aqui dentro da minha sala. O mar, ao longe. A luta que espere. Hoje vou dormir descansada. Amanhã, veremos. Ainda vem longe.
sábado, 11 de junho de 2011
domingo, 5 de junho de 2011
Aventuras no piscinão
saio com uma amiga para votar, descemos lentamente a rua da Esperança, um nome lindo para se dar a uma rua, a uma filha, a um projecto, não sei, está calor e nestes Domingos quentes é bom conversar descansadamente rua abaixo e eis que entramos no lugar dos votos. Mesas, pessoas e papel. Aí vai ele, o meu voto. Muito gosto eu de votar. Hoje, sabe-me a amargo, este voto quase inútil, que cai numa caixa sem fundo, sem projectos, sem esperança, de repente, se me puser a pensar no processo fico meio morta de tão cansada porque sei que não há força suficiente para mudar nada. Não gosto de tiradas pessimistas mas imagino-me do tamanho duma formiga a empurrar um planeta que pesa chumbo até à eternidade. Melhor é votar na minha vida e na das pessoas de quem gosto. De volta, decidimos tomar um pequeno almoço descansado, sentadas, num café da «esquina» que não é de esquina, e assim foi. Mal tinha posto um pézinho no degrau da entrada e eis que me acena um braço amarelecido, o que me preocupa logo. Egoísta, fria e má. Atrás do braço vem aquela carinha toda pintada de fresco, com umas pestanas impensáveis, longuissimas, o cabelo com riscas roxas entremeadas com castanhas, armado como uma rocha que nunca estremece, o baton castanho a brilhar, os óculos quadrados, a roupa cheia de cor....Começa a acenar freneticamente, há poucas mesas livres, eu e a minha amiga olhamo-nos preocupadas. Era só um pequeno almoço descansado, uns dedinhos de conversa. E a dona do braço:«Ana, Ana, Ana, Ana.......». Tarde para recuar e também não há muitos cafés abertos. Velhacas, vamos ao balcão pedir os cafés enquanto olhamos rapidamente em volta à procura de um lugar vago. «Colamo-nos» a uma casal numa mesa dupla e bebemos o café afundadas na chícara, na esperança - outra vez a maldita esperança - de dissuadir o invasor. Eis que ouvimos uns passinhos miudos e arrastados, e aí vem ela, de moldura de retratos na mão, muito contente: «adivinhem quem é?». Terror, conheço-a há anos e anos e esqueci-me do nome. Este medo é disparatado, é culpa pura. Aponto a medo para a fotografia da esquerda e ela diz que «sim, sou eu..». E do outro lado? «o homem da minha vida...», diz com ar intenso. Quando lhe ia a responder «o seu marido», ela adianta-se. «O meu filho, um homem que sempre foi lindo e se aqui estava lindo, agora está cada vez mais bonito». Ah pois. Já me lembro. Detesta a nora, que «é má, má, má». Ya, belo Édipo, dona Flor, desgraçado do puto, o que havia de lhe acontecer. O marido morreu, a nora é má, o filho «é um santo», as netas têm medo da avó. Nada mais «prático» do que uma boa teoria. É chapado. O filho único e lindo, fardado de oficial da marinha, estraçalhado entre duas mulheres sem um pai que o proteja. Se é que algum dia o protegeu. Vicissitudes, dizem, vicissitudes. E ela continua: «jornalista, como eu gostava de ter sido jornalista!». Calculo, acredito profundamente e lamento-a. «Mas a minha mãe proibiu-me, e eu desisti do que mais gostava». Eu a a minha amiga olhamo-la contristadas, em silêncio. «Ou então..», continua...«ai...como é que se diz? agente secreta da Judiciária». Percebo-a bem, respondo. É verdade. também era um dos meus muitos sonhos delirantes «do porvir». De novo as vicissitudes. Levantamo-nos ás arrecuas, pagamos, dizemos-lhe adeus, «um bom Domingo....dona....». Grita do fundo: «Votaram bem?». Muito bem. Bom Domingo!!!!! E para si também.Olhando para o meu irmão no piscinão, tão novo, tão contente, entre as rochas e o mar, penso nas vicissitudes que nos trocam as voltas e surpreendem, e o que era para ser já não é, e o que não era para ser, acabou por se instalar. Por enquanto. Se quisermos, nada é para sempre. As vicissitudes entre o piscinão e o mar podem ser uma grande ajuda e obrigar-nos a encontrar o caminho, com unhas e dentes antes que seja tarde. Antes que as noras nos odeiem, antes que as netas tenham medo, antes que o sol se ponha para lá do psicinão.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
voltar ao princípio, numa praia das Berlengas
Toda a vida, desde que comecei a ser gente e a andar pela areia fora, tive o desejo imenso, irracional e desvairado de ir ás Berlengas. Ouvia falar das travessias de barco, dos ventos perigosos, da velha casca de noz que se «entornava» perigosamente, e do pessoal que corria alegremente perigo de vida, como os velhos marinheiros que se enfiavam num barco sem saber se voltavam. O mar, o gigante, a força bruta, pode ser romântico e interminável até ao horizonte mas também pode virar uma fera e dar cabo de tudo e de todos sem deitar uma lágrima. Agora, que olho para trás, e que já começo a ter uma ideia do lugar que o mar ocupava e ocupa na nossa vida, na minha e na do meu irmão, vejo que ele esteve lá sempre e está ainda entranhado nas nossas fundações. A minha melhor noite do ano era a noite da «chegada», quando finalmente me deitava numa cama de colchão de palha, entre lençóis húmidos e frios, a vela apagava-se e eu deixava-me ficar muito tempo a ouvir o barulho do mar que entrava por todo lado, naquelas casas impensáveis, cheias de caruncho e bolor, em que as janelas mal fechavam. e ainda bem. Ouvir o mar a falar daquela maneira é ainda uma das minhas melhores recordações. As noites nas Azenhas, em cima de um mar imenso, são uma brincadeira ao pé do rugido do baleal by night escura. No fim do mundo, já não sabia onde acabava o mar e começava eu. E depois, a Berlenga. as berlengas.
As histórias das travessias difíceis. Depois de muito insistir, a minha mãe lá acedeu a levar-nos ás Berlengas, com um grupo de mães e crianças pequenas - lembro-me particularmento do Zé António da Nené. tenho uma fotografia em que eu, com cinco ou seis anos, o beijava à força e o miudo berrava como um doido, não sei se de medo, se de fartote, se de se birra. Sei que não ficou nada bem na fotografia: a boca toda aberta, desesperado, os dentes á mostra, o chapéu a cair, o fato de banho sem forma, um horror. Durante muito tempo pensei porque me eu teria dado ao trabalhado de beijar teimosamente semelhante criatura, ainda por cima estando ele tão contrafeito, tão furioso e ...como diria... assustado? Não mereceu, pensei anos e anos, não mereceu. Hoje olho a fotografia e sinto uma ternura imensa. Coitadinho do Zé. Era um dos meus grandes amigos. Acho que ele terá ido na viagem á Berlenga. A minha mãe apavorada, como era o seu estado normal, enfiou-nos Vomidrine, o comprimidinho amarrelo e amargo pela garganta abaixo. Era para «não enjoar». Obrigadinho. Não enjoei mas fiquei com sono e a boca amarga. Naquela altura a minha mãe enfiava-nos o que queria pela boca abaixo, desde sardinhas assadas com espinhas (porque era muito bom), até sopa de ovos com tomate e óleo de fígado de bacalhau misturados. E nós, que ignorávamos que havia lá fora um mundo diferente, papávamos tudo sem um pio.
A travessia ficou-me na memória. A postura da minha mãe dava a entender que a qualquer momento o barco podia naufragar, mas OK, pensava, pois que naufrague, sempre seria uma sensação diferente. O que eu mais queria era aventura. Apesar dos Vomidrine, houve alguém que vomitou. Vi uma rajada de uma papa branca a rasar-me o nariz, levada pelo vento feroz. Penso que foi a Fau mas ninguém disse nada. Também tenho a ideia de que nos deram umas sanduíches e nos ordenaram que nos sentássemos no chão para o barco não virar, especialmente lá num sitio particularmente perigoso, uma espécie de passagem da barra, tipo Barra do Inferno, em que há vagalhões à espera das nozes.
O barco passou, resistiu e ancorou. O meu coração batia mais depressa. Dei os meus primeiros passos no cimento, a cambalear com o vomidrine e o vento. Mas a ilha estava em perfeita paz. Entrei no paraíso. A sensação geral que me ficou até hoje foi de felicidade plena que atingiu o seu máximo quando descemos para esta praia, onde rapidamente se perdia o pé na água transparente. Estava «quente», a água, coisa quase impensável nas Berlengas. Mas eu lembro-me dela, de facto, pelo menos morna. Foi o meu histórico regresso ao útero, onde vivi o melhor sonho da minha vida. Passei o dia a nadar, todos a nadar, mesmo os que não sabiam, uma felicidade imensa que ficou para sempre na minha memoria e que voltou várias vezes em sonhos simbolicos de satisfação pura. Um contraponto aos piores pesadelos, aquele mar quente, cristalino, onde nadei em liberdade, num lugar perfeito em que a minha mãe parece que momentaneamente se esqueceu de ter medo. Este Setembro vou ter que voltar às Berlengas, já que estamos em maré de reencontros, de sonhos, de memórias e de esperança.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Viagem ao fim do mundo. Cirurgia da alma.
As ondas voltam uma e outra vez, o movimento do mar nunca pára. E é um mar zangado, irrascível, que não perdoa, que nos esmaga o peito e empura contra a areia até perdermos o fôlego, e depois se afasta de novo, sem sequer se voltar para dizer adeus. Deixa-nos sozinhos na praia vazia, os pés enterram-se na areia e fazemos um esforço para não cair. Sabemos, com angústia, que a onda vai voltar e que talvez será maior.Quando mais se afasta de nós, maior será a força do regresso. Fugimos ou enfrentamos? Teremos tempo para fugir? teremos força para a aguentar o seu embate sem nos aforgarmos de vez?
Hoje, depois de conseguir com custo trepar para o cimo do pequeno anfiteatro, de ter corrido algum risco de vida quando decidi saltar para a fila debaixo apoiada numa cadeira que balança, quando finalmente as luzes se apagaram como no cinema, um certo silêncio caíu agitado e o som do microfone da sala ao lado, separada de nós por um vidro-espelho, chegou finalmente até nós, fiquei imediatamente presa da história, não um conto de fadas mas uma história estranha e longa. Tristeza infinita, como muitos conhecemos. «Senhora melancolia», como o especialista lhe chamou. De costas para nós, um «cristo cruxificado», curvado pelo sofrimento conta então o seu calvário. À medida que o conta, o fio da narrativa torna-se mais firme, mais claro. O cristo diz que não pensa, que não sabe pensar, que está confuso, que baralha tudo, mas não. O caminho está lá todo, dir-se-ia quase completo embora o «especialista» garanta mais tarde que só se aflorou a ponta do iceberg.
E o milagre acontece ali mesmo. Um homem sentado olha atentamente uma mulher desfeita. Que ainda não se decidiu se quer ficar ou partir. Que fala e fala e fala, e conta tudo. Diz que não sabe como foi apanhada pelo desejo de morte, pela doença misteriosa que diz arrastar há anos, que não sabe de nada, que esteve para enlouquecer, que enlouqueceu e que foi tomada pela doença porque «sim». Foi caindo em cima dela como uma manta de lama que pouco a pouco a envolve e se faz pesada e escura nos seus ombros, a ponto de ela já não aguentar o seu peso. Porquê?, pergunta o homem. «Não sei», responde. Ele está ali e limita-se a escutá-la e a olhá-la. Não desvia um milimetro a sua atenção, quem olha de repente diria que ele está impassivel. Pela parte que me toca, sinto que a sua presença é tão forte, que enche, inteira, a sala peqena, como o génio da lâmpada dentro da garrfa fechada, comprimido, denso no sentir e no ouvir. A magia é esta e ocorre-me que há milagres: ele escuta-a tão intensamente como provavelmente ninguem a escutou nunca. E depois talvez seja também a densidade de chumbo com que ele o faz. E a empatia. E todo o seu ser que está ali posto à disposição da mulher, o cristo pregado na cruz que de repente começa a contar coisas importantes, uma história cheia de sentido trágico, como por vezes a vida sabe ser trágica.
Aparece, claro como um cristal, o caminho de morte. Onde terá começado, onde e porquê explodiu finalmente, como se desenvolveu até ela se arrastar entre a vida e a morte. É porque ela, a mulher «cristo crucificado» foi condenada á morte, há muito tempo pela própria mãe, assm como quem não quer a coisa. e depois a morte ded facto, nunca mais a deixou. o cristo debate-se estraçalhado entre o apelo de morte mas quer viver apesar da maldição e da fúria materna. E chama-lhe santa, «a melhor mãe do mundo». Sem se dar conta, revela cada passo, cada degrau da escada que a morte foi subindo no silêncio da sua alma atormentada, e de que forma a apodreceu. A morte terrível do irmão mais novo, as guerras, os medos e os traumas que traz dentro de si, vozinhas infames que clamam incessantemente pela sua morte. Vai ficando mais leve á medida que fala. Prepara-se para sair e ir embora, mas poderia ter ficado ali a tarde inteira e eu ficaria presa das suas histórias. Com quatro ou cinco palavras o homem absolve-a da dor insuportável da culpa. Diz-lhe que se perdoe e que esqueça tudo, porque não é criminosa. Ela ouve com atenção, ela mexe-se com facilidade noutras dimensões, liga-se facilmente ao invisível e de alguma maneira é facil sonhar com ela. Conta as suas ligações com um além benéfico, a ligação profunda que tem com o único filho, como se adivinham, como se comunicm sem palavras.
Por momento tenho a ilusão eufórica de que poderia ficar ao lado dela. Apetece-me pedir ao homem que aceda a salvar mais uma vida, só mais uma. Que a cure para que ela possa vir ainda a ser feliz, memso que só por uns tempos, só uns meses, uns anos, mas ela merecia. Mas ele deve estar cansado, já tem a sua conta de salvamentos.
Milagre imenso, é para minha a certeza da origem e da sequência quase sagrada das tragédias, dos destinos e do sentido profundo das coisas. A vida é coisa muito séria, é para ser vivida com respeito aproveitando todas as alegrias sem deixar escapar uma , sempre que possível, para esconjurar o mal e a melancolia. Há caminhos de grande sofrimento, por um lado, e há formas simples e inteiras, completas, de lhe dar uma saída, por outro. Tudo é nomeável, e isso é coisa mágica. Falamos, curamos. É só desvendar, com uma chave mágica, a sequência das coisas, saber onde tudo começou.
Saio eufórica da aula. Se acabámos de tocar um milagre desta forma tão simples e profundamente eficaz, tão humanamente cirúrgica, então tudo é possível nesta vida. Aposto na alegria. Na celebração. na redenção.
Agradeço profundamente às minhas companheiras de entusiasmo pela descoberta destes caminhos, desta compreensão sagrada da vida.
terça-feira, 10 de maio de 2011
entrar no mar ao fim do dia
Participar na vida é bom, mas vê-la seguir ao longe também tem a sua magia. estes vão entrar no mar ao fim do dia, quando as sombras caem e o sol se afunda no horizonte e tudo começa a ficar banhado de uma luz irreal, como num sonho de morte e de vida. Abençoados os aventureiros que se atrevem a entrar pelo mar adentro quando a noite está quase a cair. São guerreiros que não têm medo do que os espera e enfrentam os perigos, o desconhecido, as interrogações, os interditos, os avisos, mas preferem viver intensamente uns minutos, horas ou dias do que ignorarem o prazer de entrar assim nas águas frias ao cair do dia.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
numa sala do texas
A diferença horária entre College Station no Texas e Lisboa é de mais de seis horas, por isso, para falarmos temos que acertar a hora do encontro para aproveitar bem o tempo. Assim, aos Domingos ou aos sábados ao fim da manhã, ligamos os repectivos skypes, com as câmaras devidamente apontadas e...o milagre acontece. É o sonho transformado em realidade. Pensar que quando vivíamos em Santarém, debruçados sobre o rio Tejo, viamos filmes a preto e branco na televisão e uma das coisas que mais me fascinavam eram os filmes futuristas em que os telefones tinham um pequeno ecrã de televisão e as pessoas ligavam-se e falavam em directo umas com as outras. Aquilo fascinava-me mas achava o fenómeno tão impossível de se tornar realidade que me obrigava a pensar que se tratava de uma loucura. Loucuras de um reliazadcor um bocado marado que gostava de imaginart impossiveis. Boa!. Adoro as supresas da vida. Tudo começou a andar muito depressa, e de repente o sonho virou mil realidades cada uma mais incrivel que a outra. Sentada descansadamente na minha sala em Lisboa, num segundo, carregando numa teclazita do computador entro numa outra sala, por sinal bem maior que a minha, que dá para um belo jardim cheio de árvores, algures numa cidade perdida no Texas. O meu companheiro de skype pega no computador e anda pela casa inteira a mostrar-me todos os cantos. Pelo caminho, encontramos a Julia, uma menina com 5 anos que de descaradinha passou a envergonhada e quando percebe que está dentro da mira do computador rasteja rapidamente para baixo de uma mesa. E o computador avança pela casa. Agora entramos num enorme quarto de brinquedos onde dois adolescentes gémeos, um rapaz e uma rapariga - me acenam com um ar amigável, é domingo de manhã e eles jogam um jogo qualquer na maior tranquilidade. Mais uma reviravolta com o computador e eis-nos de volta á cozinha, enorme, bem à americana. Grande mesa, grandes janelas de vidro até ao chão, está tudo pronto para o pequeno almoço. Ouvem-se vozes e chega a dona da casa, com quem troco os bons dias. Ela tem o cabelo a pingar porque deu umas braçadas na piscina. Temos saudades uma da outra e falamos ao mesmo tempo.Tento fazer o mesmo com o meu computador e vou ao quarto do meu filho manel que acordou particularmente mal disposto e mal abre a boca. Fico furiosa com ele, este miúdo anda parvo. O Zé já saiu para estudar fora. Desisto. Só tenho a grande árvore do adro da igreja para mostrar. Toda a gente já a viu mil vezes.
Voltamos ás respectivas salas, sentamo-nos, olhamo-nos nos olhos e começamos a falar. É o momento sagrado das revelações. Estão três quadros na parede da sala do Texas, um homem, uma mulher e uma criança. São parentes já mortos há muito. Fico de repente a saber que a mulher supostamente minha tetravó matou o marido para casar com o jardineiro. O homem, seu filho, matou a mulher brasileira num ataque de ciúmes. Ela enganou-o com outro homem, e ele decidiu abafá-la com uma almofada embebida em clorofórmio. O menino não sei quem é, esqueci-me, deve ser uma desgraçada criança da família, como uma camisa branca de folhos engomados e um casaquinho de veludo. Os seus olhinhos pretos escondem segredos e terrores. Fico a saber que os quadros foram herança tardia de um primo afastado. Bem haja, primo, esteja onde estiver, porque esta história é peça indispensável para perceber alguma coisa do nosso labirinto familiar.
Fico em estado de choque com a revelação mas depois rimo-nos ás gargalhadas. Nada de dramatismos, afinal estamos vivos e contentes. E apesar das saudades, estamos á distância de um clique - não é assim que se diz na publiivdade? - temos a cnfortável certeza que vamos continuar as histórias para a semana.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Afinal sabe bem perder o pio
Afinal gosto de ficar em silêncio e pelas melhores, mais pacificas e bondosas razões. Há bocado disse que não, não senhor, que falar é quase sempre muita bom, e quando me remeto ao silêncio é para poder usá-lo como arma de arremesso, quando a malta conversadora não vale um caracol e só diz estupidezes do caraças, e que me calo porque se falasse era para os insultar, para os denegrir, para os envergonhar, para berrar com eles, para os assassinar psicologicamente, para os deitar abaixo intrapsiquicamente, para os colocar no lugar que verdadeiramente lhes compete, que é uma capoeira que eu tenho lá no fundo do jardim. Mas não. Mais uma vez me arrependo dos meus impulsos arrogantes e das minhas conclusões radicais, e ainda do saco de dinamite que trago sempre na carteira para o que der e vier não vá irritar-me com qualquer coisinha que me desagrade, nomeadamente um monólogo muita estúpido.Não, a verdade é que eu adoro partilhar o silêncio a dois, a três ou seja como for desde que aconteça em certas e determinadas circunstâncias, como na ...meditação, por exemplo. Acontece que tomei consciência disto agorinha memso, vinda duma dessas sessões em bela companhia, e em que se fez um silêncio de ouro, compartilhado na mais tranquila disposição que se pode imaginar. E sim, «conversámos» em silêncio. Lurdes de Castro, artista plástica, hoje com 80 anos, vive num mundo encantado algures nos Açores, numa casa de fadas. À noite, apura o ouvido e imagina a agitação das conversas intermináveis entre as raizes das árvores enterradas nas profundezas da terra escura, e que assim se cruzam, trocam, tocam e comunicam em silêncio, quando à superficie, todos dormem descansados. Assim acontece quando se adormece o corpo mas não o espírito. Em vazio e silêncio, vemos a nossa vida como um filme. Do silêncio partilhado surge uma corrente de pensamentos adivinhados pelo grupo. Cada um contribui com as suas imagens. Foi diferente (para mim) e soube-me muito bem.
Também gosto da comunicação entre inconscientes, em que não é preciso articular uma palavrinha que seja porque há canais comunicantes que as levam e trazem sem que ninguém mexa um músculo da cara. Falar sem articular palavra, sem abrir a boca, é coisa mágica e intensa. Adivinhar os pensamentos do outro assim, sem mais, e enviar-lhe outros tantos de volta, tudo no maior e mais profundo silêncio, é outra forma de viajar sem limites. Não, não é para todos. É uma coisa especial que acontece em situações especiais.
Não esquecer que há outras coisas na vida para além das «especiais». Não é preciso ser alien já nascido com dons especiais. Por mim, posso caminhar horas em silêncio à beira-mar com alguém fixe, com quem me sinta em perfeito à vontade, alguém em quem confie, que me faça sentir bem, mesmo (e sobretudo) sem palavras. Porque, diga-se a verdade, um longo passeio à beira de um mar que seja digno desse nome, furioso, zangado, imenso, um bruto mar atlântico, agreste e ameaçador, não dispensa um silêncio a sério. Nada pior que uma gralha, mesmo que seja do mais filosófico e profundo que há, que insista em falar mais alto que o mar. Aí, lá volto a deitar mão ao dinamite e vai tudo pelos ares em menos de um fósforo. Querem brincadeira, não?
Subscrever:
Mensagens (Atom)



