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quinta-feira, 12 de março de 2020
domingo, 12 de julho de 2015
12 de Julho de 2015
Um ano e picos sem escrever e eis que volto à vida. Cheia de alegria, amor e raiva. e contentamento, e sentido de um novo poder, que os deuses me perdoem. Acho que é tempo de agradecer a todos os meus amigos que estiveram comigo nestes últimos dois anos, em que me deram a mão para eu poder atravessar mais uma longa ponte da vida, daquelas pontos que nos separam dos outros lados da vida, da terra e do céu.
O passar dos anos, o atravessar das pontes e túneis, sem perder de vista aqueles a quem amamos de verdade é a maior das dádivas.
Aprender, passe o convencimento, é o cimento estruturante da vida. é como beber um copo de poção mágica todas as noites, todos os dias. Aprender a ser gente, aprender a dar sem pedir em troca, aprender a ser tu, sendo, simplesmente, é o sangue da vida, aprender a dizer «adoro-te» é quente e doce, aprender a dizer «sai e cala-te porque me fazes doer a cabeça e não me interessa» é a maior das conquistas.
Perder o medo de ficar só, ou seja, poder finalmente ficar só, à la Winnicott, um dos grandes amores da minha vida, é a maior das conquistas - falo por mim. Só se pode ficar só se se está pleno por dentro.
Perder o medo de pegar numa vassoura e varrer o lixo que se acumulou nos cantos da nossa casa interior aos longo dos tempos é também a mais leve, fresca e libertadora manobra que podemos levar a cabo.
Perder o medo de escolher, outro milagre.´
Perder o medo de perder, mais um milagre.
Perder o medo de abraçar, outra alegria imensa, conforto eterno. Perder o medo de sermos nós, o tal Self cristalino que parece que temos guardado dentro de nós até que um princípe nos acorde e nos incite a usá-lo com orgulho, é a liberdade em todo o seu esplendor.
Abençoados os livres dos ódios, dos bloqueios, dos esquemas, das palavras ocas, dos pensamentos inúteis é poder subir às levezas do espaço.
Aqui sentada, de onde estou, com árvores e rios á volta, posso olhar para baixo, para o mar imenso e ver as casinhas , as igrejas, os caminhos, os riachos, as pessoas pequeninas, lá em baixo a passar. para onde vão? Quem as incita a andar?
Quem mandou mudar a nossa vida por desespero? A tranquilidade, a estrutura, a maturidade, deveria permitir-nos escolher, pensar, planear e supor as consequências dos nossos actos.
Todo este palavreado não exprime nada mais do que a alegria de voltar ao meu «procurem no fundo». Sempre.
Um ano e picos sem escrever e eis que volto à vida. Cheia de alegria, amor e raiva. e contentamento, e sentido de um novo poder, que os deuses me perdoem. Acho que é tempo de agradecer a todos os meus amigos que estiveram comigo nestes últimos dois anos, em que me deram a mão para eu poder atravessar mais uma longa ponte da vida, daquelas pontos que nos separam dos outros lados da vida, da terra e do céu.
O passar dos anos, o atravessar das pontes e túneis, sem perder de vista aqueles a quem amamos de verdade é a maior das dádivas.
Aprender, passe o convencimento, é o cimento estruturante da vida. é como beber um copo de poção mágica todas as noites, todos os dias. Aprender a ser gente, aprender a dar sem pedir em troca, aprender a ser tu, sendo, simplesmente, é o sangue da vida, aprender a dizer «adoro-te» é quente e doce, aprender a dizer «sai e cala-te porque me fazes doer a cabeça e não me interessa» é a maior das conquistas.
Perder o medo de ficar só, ou seja, poder finalmente ficar só, à la Winnicott, um dos grandes amores da minha vida, é a maior das conquistas - falo por mim. Só se pode ficar só se se está pleno por dentro.
Perder o medo de pegar numa vassoura e varrer o lixo que se acumulou nos cantos da nossa casa interior aos longo dos tempos é também a mais leve, fresca e libertadora manobra que podemos levar a cabo.
Perder o medo de escolher, outro milagre.´
Perder o medo de perder, mais um milagre.
Perder o medo de abraçar, outra alegria imensa, conforto eterno. Perder o medo de sermos nós, o tal Self cristalino que parece que temos guardado dentro de nós até que um princípe nos acorde e nos incite a usá-lo com orgulho, é a liberdade em todo o seu esplendor.
Abençoados os livres dos ódios, dos bloqueios, dos esquemas, das palavras ocas, dos pensamentos inúteis é poder subir às levezas do espaço.
Aqui sentada, de onde estou, com árvores e rios á volta, posso olhar para baixo, para o mar imenso e ver as casinhas , as igrejas, os caminhos, os riachos, as pessoas pequeninas, lá em baixo a passar. para onde vão? Quem as incita a andar?
Quem mandou mudar a nossa vida por desespero? A tranquilidade, a estrutura, a maturidade, deveria permitir-nos escolher, pensar, planear e supor as consequências dos nossos actos.
Todo este palavreado não exprime nada mais do que a alegria de voltar ao meu «procurem no fundo». Sempre.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
À noite, antes de dormir, medito. Tento meditar, virada para a janela, e a verdade é que resulta. Á noite, embrulham-se os pensamentos, memórias, planos, planeamentos, obrigações, balanços do que falta fazer, do que já fiz, do que não consigo fazer.
Interrogo o futuro o menos possível. E esta minha nova condição, uma entre uma lista razoável de novas condições, é uma aquisição preciosa para mim.
Acho que foi o ano da aprendizagem (ainda que nunca definitiva, porque o melhor das aprendizagens é, justamente, nunca serem definitivas). Acho que fiquei mais sensata, passe a arrogância da coisa (não gosto de auto-elogios, talvez seja modesta de mais).
Diria que neste ano tão quente, em que sinto que se acaba um ciclo e em que outro já começou, cresci, envelheci ou amadureci, conforme se queira. velhas e dolorosas questões voltaram, mas de uma maneira estranha, bizarra, porque houve dor mas não violência, tristeza e cansaço mas não desespero, derrotas que se transformaram em vitórias.
À beira da morte, mas mais viva que nunca. Ou se se quiser, nunca fui tão feliz, no maior dos desesperos.
Quando subo as escadas de pedra, de manhã, há luz em todo o lado. O Sr. Moura levanta-se da cadeira e invariavelmente dá-me um grande abraço, coisa bizarra se atendermos ao lugar onde isto se passa, no meio da autoridade instituída e das fardas, há sorrisos cúmplices, parece a revolução dos cravos, espingardas e flores, eis do que se trata. Mais um lance de escadas de pedra polida, mais sorrisos, conversas curtas, mais escadas, mais um café duplo e as confidências sentidas sobre a mãe da Anabela. Depois as colegas-camaradas das fardas azuis, que inocentemente sorriem e desesperam porque os salários não chegam. Mais escadas, e estou no laboratório. Aqui tudo se passa, da loucura à ternura, da grande comunicação ora em silêncio ora em gritaria, dos poemas da Sophia.
De noite, quando todos já saíram, decido-me finalmente a entrar nos corredores a perder de vista, a corre-los todos até chegar exausta à porta da rua. Se a missão foi plenamente cumprida, sinto-me uma rainha cansada, exausta, mas uma rainha.
por causa desta e doutras condições, por causa de um verão longo e quente em que muito se jogou e que muito se perdeu (mas não a face) aprendi, naturalmente, aparentemente por magia, coisas tão importantes como não interrogar o futuro. E aceitar o sofrimento como fazendo parte da vida (tão simples! nada mais que o velho e sábio princípio da realidade do fabulosamente sábio Freud!). Simples e extraordinariamente eficaz, mas admito como pode ser horrivelmente difícil de aprender e viver.
Humildade e verdade, mais princípios simples mas complexos, leves, mas muito pesados até que se integrem, e outras coisas mais, todas deste género, pequenas mas grandes verdades de almanaque, mas o extraordinário é que são tão fundamentais a uma vida mais inteira e intensa, como respirar.
Olhando para trás, até hoje, dia 2 de janeiro, o melhor foi o afecto. A compaixão, a ternura, o amor. sem sentimentalismos, são a grande rede das nossas vidas. Agradeço do fundo do meu coração a todos os que me apoiaram, ajudaram (às vezes sem uma palavra, mas com atos fantásticos de generosidade e confiança), a todos os que me ouviram e a todos os que me contaram, a todos os risos e a todas as lágrimas, trocados, partilhados, ouvidos e sentidos, a todos os que me ensinaram (com palavras e sem palavras, pelo exemplo vivo da generosidade e alegria), a todas as perdas ultrapassadas e transformadas de novo em vida (em nova vida), a todos os que me ajudaram a chegar um pouco mais fundo e mais longe dentro de mim e dos outros.
A quem que disse adeus, mas que sei que vão voltar, eternamente, de todas as formas, e que estão, em mim, presentes. Às incríveis transformações do amor, que segue caminhos insuspeitados, que faz curvas, que sobe montanhas e desce aos infernos, mas que por ser tão verdadeiro, sobrevive sempre, mais forte que nunca.
A ti querida Mónica, «Entre-mãos» e a sincronicidade. Como sempre, hoje foi um dia de surpresas boas. Li a Mónica e falei com a Isabel Blue. e a Isabel, mandou-me este texto:
"Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens. Não chores pelo que está morto, luta por aquilo que nasceu em ti. Não chores por quem te abandonou, luta por quem está contigo. Não chores por quem te odeia, luta por quem te quer. Não chores pelo teu passado, luta pelo teu presente. Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade. Com as coisas que nos vão acontecendo vamos aprendendo que nada é impossível de solucionar, apenas sigam adiante. "
Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco.
domingo, 25 de agosto de 2013
25 de agosto de 2013
lua cheia,
lua cheia, lugares e desgostos, surpresas e estados de choque.
Entre o
turbilhão, esta necessidade de um panorama de fundo, uma viagem rápida ao
passado até agora, como uma super viagem interplanetária, viagem na máquina do
tempo e aqui estou. Tudo se passou rápido e tudo faz sentido.
Então nasço
num fim de tarde que imagino frio, em estado de aflição numa correria do
Tramagal para Abrantes. Nunca explorei esse bocado da minha vida, a minutos de
entrar no mundo do oxigénio, de ver a luz do planeta terra, numa aldeia perdida
algures. E sim, quando tirei o capacete do liquido amniótico e me livrei da
peles sangrentas da placenta, os «meus olhos foram sugados para o espaço», como
dizia o astronauta boneco dos filmes dos meus filhos pequenos, que eu tanto amava. E eis que deve ter sido na maior aflição. Uma correria angustiada para o hospital. eu eu? aos tombos num útero contraído, aterrorizado e distraído, para não dizer hostil.
Porque agora
sim, de longe, pela primeira vez, neste quase ultimo virar da minha vida, já
consigo imaginar e reconstituir de longe o ambiente, o contexto, a tensão, o medo e a
ansiedade desencabrestada desta minha família de doentes emocionais.Fazê-lo ficou subitamente fácil, e preciso é uma dose eterna de paciência e refazer todo o caminho como se tricotasse um cobertor eterno, eternamente.
Até onde foi a dor e o abuso é o que menos interessa agora, isso seria pegar no bisturi e não é
disso que se trata agora.
Assim, nasci
e puseram-me a dormir no alto de um berço de um pé só que, como me contaram, se
virou a meio da minha primeira noite por impulso da minha avó que tanto me amou, de maneira
doente é certo, ou seja - sem esconder o seu lado depressivo de mim. Não
sabia que isso fazia mal às crianças. assim, afogava-nos em pânicos, pessimismos
e medos. Revoltas,tristezas e queixumes, também. E sim, lembro-me que ela acordava angustiada. com
um cão a saltar-lhe à garganta. Também tenho um cão desses- chama-se Fiel, em honra do cão perdigueiro do meu avô.
Passou.
Pelo que
vejo nas fotografias e à medida que fui desenterrando as minhas hidras em lugar
adequado, não fui «feliz» na minha infância que em vez de ser dourada foi
escura, foi sombria, foi...como? Lembro-me do mar e da areia e das rochas como
lugares de euforia silenciosa, deliciosa, tranquila e quente. Essas são as
minhas melhores memorias de sempre e pergunto-me em que pensava eu nessas
alturas, cujas memórias eu acordo agora tão facilmente. Pensamentos de calma e
surpresa, lembro-me do roncar do avião à hora da sesta, e da felicidade imensa
que isso me causava antes de adormecer perfeitamente feliz.
Vejo-me a andar na
varanda do hotel, o meu pai chama-me da janela e tira-me a fotografia de que eu
mais gosto. Eu, no meu vestido azul escuro, tão em sossego, o mar por todos os
lados, o cheiro das algas.
Passaram
turbilhões de anos, aos altos e baixos, como um carrossel imprevisível. cheia
de pensamentos desordenados. Às vezes sentava-me e escrevia e ainda hoje me
surpreendo quando vejo que alinhava duas ideias.
Depois veio
o tempo melhor. os filhos que eu julgava que nunca iria ter. as fraldas, o
leite, as conversas e a pele quente macia dos seus corpinhos e o seu olhar. quando me olhavam,
inocentes, transparentes, com aquela transparência divina que as crianças
têm. Quando olham para nós trazem todas as memorias do universos, trazem milhões de anos de amor, de esperança,. de confiança, de saber e de curiosidade.
Não é o amor dos pais que é incondicional, que ideia mais estupidametne feita. O amor dos pais pelos filhos está inevitavelmente poluído pelas suas longas histórias sombrias. Incondicional e total, e verdadeiro é o amor dos filhos pelos pais. esse sim, é o mais incondicional dos incondicionais.
Hoje, o
melhor que o olhar me dá são as crianças que pululam na cidade.
São
pequenas, umas magrinhas, outras mais gorduchas, os chapéus, as sandálias, as
perninhas que andam assim, como se pisassem Vénus ou Marte, com cuidado e
espanto. E os olhos, o olhar que erguem para os pais, as tias, as avós, os irmãos mais velhos. perguntam, solicitam, confiam, acreditam.- Muitas vezes choram de espanto e dor quando levam um estalo sem saber porquê ou porque não.
às vezes vão tristes, de noite, cansadas, elas com bonecas, elas com carrinhos ou bolas a fingir. Vão cansadas porque os pais não se importam que seja tarde, e não lhes passa pela cabeça que elas precisem de colo.
Têm olheiras umas vezes, outras vezes riem-se e brincam com os irmãos.
Uma menina gordinha anda de patins a alta velocidade em frente à Assembleia e os polícias sorriem.
Ontem, na esplanada ao lado do ISEG, ao sol quente de Agosto, duas irmãs vestidas de igual brincavam com a mãe. Faziam um jogo e a mãe fingia que era um robô. andava como um robô, e as miúdas riam. E a mãe atravessava o jardim e andava como um robô. e elas chamavam-na de longe e riam.
Passou tanto tempo.
passou tanto tempo. Passou tanto tempo e agora vamos virar uma nova curva da vida.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Uma nau no fundo do céu
Não costumo ver muito o meu irmão, não vive perto, foi para longe, o miúdo. Veio a Lisboa por via das naus, e aí está ele, microfone na mão, e nós, irmãs, encantadas, a vê-lo «evoluir» no palco, como se diz. E ele evolui bem, diga-se de passagem, isto é, parece que nasceu - e nasceu - para falar num palco das suas naus bem amadas. Poderia ser sobre uma coisa qualquer porque ele tem o dom da palavra. Lindo, o dom da palavra. aquela forma mágica de lançar palavras, encadeá-las, fazer rir a plateia que está presa delas, fazer uma declaração de amor a uma senhora que o escuta e o elogia, sentada nas filas da frente. A senhora tem olhos de águia, é bonita no seu cabelo branco e também ela solta na palavra, descontraída, inteligente. Continua assim um «namoro» antigo, trabalharam juntos e admiram-se. Sentadas a unas metros, as manas encantam-se. Por momentos, sonho estar também em cima do palco, com ele. Narcisismo, diz-me a minha irmã, fantasias de narcisismo. Pois. Temos todos um quê de narcisismo, temos muito mais coisas, é certo, mais dinâmicas complexas, tortuosas, sombrias umas, frescas outras, temos essa mania de fazer inventários de memórias, agora mais do que nunca talvez porque os anos passaram tão depressa que, de repente, muito das nossas vidas já é «história». Uma história simples, como a de toda a gente, mas animada de dramas verdadeiros e muito entusiasmantes.
Com a idade passei a gostar deste nosso lado emocional que vira mesas com raivas, ódios, amores, gritos, risos, ranger de dentes, lágrimas, arrepelar de cabelos e gargalhadas de vampiro, histéricas, tipo explosão de granadas de mão num exercício de prazer inegualável. Quando nos vemos ao espelho vemos uma família mista de ciganos, mexicanos e italianos. Muita pimenta e muita lágrima, muita intensidade.
Temos, vejo com alegria, um grande pendor para a viagem analítica. Desculpem, mas não sei viver sem esta palavra e não é arrogância nem assomo de intelectualidade. É paixão pura. Abrir o alçapão que nos leva à cave das origens ou subir as escadas para o sótão cheio de teias de aranha é a mais saborosa das aventuras. Gosto de chorar, acreditem. Nada melhor do que sentir as lágrimas a subirem do coração ou seja lá onde elas se escondem, até à garganta,e de lá aos olhos, e assim afogar-me em soluços como se fosse morrer de desgosto apunhalante meia hora depois. Mas não, qual o quê! Depois de uma boa tarde de choro, o sono é pesado e doce, e de manhã, a minha pele brilha, perfeita. Deixei cair mais uma pele de serpente, seca e gasta, na curva do caminho.
Melhor do que chorar só mesmo rir até cair, e a isso, nós também brincamos muito: a ver quem ri mais.
Ora, como se manifesta o amor do meu irmão pela psicanálise, de que, secretamente e às escondidas, porque tem medo das minhas fúrias, se ri silenciosamente? - despreza-a um pouco, mas ele sabe, ele sabe de tudo, mas já se esqueceu que sabe. E tanto assim é que o gosto pelo caminho que o leva ao fundo de si mesmo foi o caminho das naus, das naus que nos levaram à Índia.
Acho graça ver, da plateia onde estou, a maneira como ele acabou por se dedicar á tarefa preferida da família (salvo raras e legitimas excepções): ir fundo, ir mais fundo, ver o que se esconde no fundo do mar, da água, da água transparente e gelada do Atlântico, digamos... do Baleal, o ancoradouro das nossas almas de criança.
Foi lá que realmente aprendemos a mergulhar, é desse tempo que as minhas e as suas memórias nos vêm visitar. Ele mergulha literalmente ao fundo escuros dos mil mares por onde tem andado. E depois constrói naus em madeira imaginada, como se construísse a sua vida. Eu parti daquele cais romano numa enseada perdida no forte do Baleal. Ele gosta de canhões de ferro. Eu uso os canhões para imaginariamente disparar sobre a multidão. Ele refaz em 3D o mundo interior e complexo de uma nau. Pegou num fio e diz que vai seguir esse fio até à reconstituição da vida dos homens que navegavam na nau. Grandes planos, meu irmão! Refazer o barco da grande viagem, refazer os ventos que sopravam nas suas velas, atravessar o mundo e descobrir o segredo. O segredo de quem somos.
O meu irmão tem uma nave no fundo do céu que o levará à Lua. Em terra, espero que ele volte dessas grandes viagens e me conte tudo, enfim.
sábado, 29 de dezembro de 2012
A memória dos espaços e uma gravata amarela
O mais bonito do Baleal é o espaço a perder de vista. Sentia-me tranquila quando acordava de manhã, na casa do terraço grande, abria a janela de madeira encarnada, corroída pelo vento salgado, e ouvia ao longe o barulho das vozes que subia até lá acima, eu inquieta por descer depressa até à praia que me esperava lá em baixo. Sabia que ia ser um dia bom, livre,
agua salgada, eu a mergulhar, a conversar, a subir e a descer rochas, o cheiro dos limos verdes escuros, e se me apetecesse e estivesse maré vazia ia de certeza passear até perder de vista. ia certamente à procura do Joaquim, ia pedir-lhe que viesse comigo e iamos conversar as nossas conversas intermináveis, as ironias inacreditáveis, o seu imenso sentido de humor, o seu tom de voz, o sorriso, o riso ao canto da boca, olhavamos um para o outrio e sorriamos, ríamos, e ele tinha aqulea maneira diferente de ser. o que mais amei no Joaquim - e está sempre colado a ele, foi o seu sentido de liberdade, de diferença, de humor. A intimidade também se faz destas coisas, dos interesses em comum, das mesmas formas de nos rir das mesmas coisas. fazíamos muita troça de muita gente, uma troça benévola, sem maldade, mas que ele, com a sua inteligência, tornava tão subtil, tão sofisticada, tão volátil que era um prazer enorme para mim tentar segui-lo e apanhá-lo nos caminhos sinuosos e transparentes dos seus pensamentos e analogias «malvadas». muitos nos rimos nós. e continuamos a rir, tantos anos passados, quando tenho a sorte - rara - de estar com ele.
No dia do baptizado do Manel saímos de casa atrasados como de costume, e como de costumo o pai do pequeno ia nervoso. Tão nervoso que pela décima quadragésima vez nos enganámos à saida da auto-estrada para santarém e quando demos por nós íamos, claro, a caminho do Porto. O costume. Voltámos entre gritos e preocupações, entre acusações mútuas tipo «tu é que me distraíste», «eu nunca me engano sem uma razão», «afinal isto não é assim tão grave», e por afora. Grave ou não grave, chegamos á igreja atrasados e o Joaquim lá estava, lindo, com a sua gravata de seda amarela, o seu casaco azul escuro, o padrinho do meu Manel. O Joaquim apoiado numa bengala, creio.
Nessa altura eu não tinha o sentido do controle das coisas, o tempo e o mundo fugiam-me pela ponta dos dedos, não sei como era, mas chegavamos sempre atrasados a todo o lado. O dia correu normal, e eu orgulhosa do Manel gordinho, eu ainda em plena vida de família «com crianças pequenas». Foi bom, de facto, apesar das viagens sempre atribuladas. Uma vez, sem querer, numa dessas viagens, alguém carregou no botão do gravador sem querer. Quando, algum tempo depois,ligamos o gravador e a cassette começou a rodar, ficam os de boca aberta com o que ouvimos. Berrávamos descontrolados um com o outro e sempre por causa dos perigos eminentes que nos espreitavam na estrada, enquanto o João planava nas alturas. da gravação sobressaía um terrorífico «páaaaaara!, pára já!», ao que ele respondia, virando-se para mim, como se estivessemos sentados na sala, a beber um café: «mas o que foi, paro porquê?». «Porque nos vamos espetar n o carro da frente!, oh minha Nossa senhora!». ele olhava-me sem perceber, e dizia que quando guiava sozinho nunca por nunca ser se sentia em perigo. Curioso. Sempre tive o pânico quando ele se esquecia do volante e se voltava para trás, para ver a paisagem. mas o mal era meu, certamente. Nasci apanicada.
Joaquim, temos sobrevivido e tenho saudades da tua piscina na Azambuja, uma piscina que tu planeaste pequena, para nela só caber uma pessoa de cada vez, não fosse a tua casa e o teu jardim encherem-se de biliões de banhistas.
olha, Joaquim, prometo ir sozinha um dia destes a tua casa. e peço-te para tomar um banho na tua piscina, enquanto me fazes um chá. e peço-te já agora, se não for abusar muito, que me aqueças a água da piscina. eu entro a direito, e ali ficvarfei, de pé, água até ao pescoço, o vapor da água quente a sobrevoar o piscinão, assim como os banhos de vapor na Noruega.
Jaquim, tem pena de mim.
sábado, 18 de agosto de 2012
nascentes do bosque e becos sem saida
Não vou dividir o mundo em dois, ou três, ou quatro, ou qualquer outro número porque seria inútil, sem rigor, sem verdade, injusto. As classificações são úteis para os manuais de patologias, psicologias, teoiras e outros do género, que eu adoro (arrumar coisas em gavetas é uma nova atividade que me enche de alegria), mas que para aqui não são chamados. Estou a falar dos «mundos interiores», tema mais do que escorregadio, nunca totalmente acabado, explorado, tema complexo e rico, além de privado e infinito. Classificar é, fora do devido contexto, um ato muito incompleto e atrevido, sobretudo, altamente pretencioso porque o faz.
mas se há coisa a que não resisto é classificar. perdoem-me mas tenho esta maniazinha de vez em quando. Assim, aprendo imensamente - e como se calcula é uma aprendizagem rica e nunca acabada - é destas que eu gosto - a observar, a sentir, a mergulhar no que se passa á volta. e passa muita coisa. dessas coisas que olho, são muitas as que com que me identifico. o tal mecanismo de espelho seguido do não menos maravilhoso, por ser tão mágico, mecanismo de associação. é automático. olho,oiço, sinto e todas essas imagens e sensações fazem dentro de mim um longo caminho. e essas mesmas sensações, sentimentos e emoções que à partida são dos outros, à sua passagem dentro de mim, arrancam e identificam bocados de mim mesma: eu fui assim, eu senti assim, eu sinto isto, eu vivi aquilo, eu tenho esta fantasia, eu tenho esta esperança, este desamparo, este medo, esta alegria. somos todos muito iguais. somos todods muito diferentes. e nessas pareceças e desigualdades, nessa união tão infinitamente rica, eu sinto-me renascer a cada instante. somos todos, somos um, somos um bilião, e todos vivemos esse cortejo imenso de emoções das mais variadas maneiras, nascidas e desenvolvidas nos mais variados contextos. somos diferentes.
essa possibilidade dediferença essencial é a mais pura criatividade. Chamemlhe divina, chamem-lhe o que quiserem, criatividade pura, libido milagrosa, magma de vida.
por isso o mundo é tão extraordinariamente mágico e maravilhoso. sem fundo. Mas sim, aconselho sempre a procurarem no fundo. Vale mesmo a pena, diria, atrevidamente mais uma vez, que é das mais essenciais coisas a fazer. Mergulhar no nosso mundo a fundo para poder mergulhar no dos outros. as descobertas nunca mas nunca acabam.
voltando atrás, divido o mundo em dois sem complexos, sabendo bem os riscos que corro. mas não resisto: as nascentes de vida, que nascem nas rochas do bosque verde, e as outras que são verdadeiros becos sem saída. Têm saída mas apresentam-se como becos sem saída.
falando de uma forma simples: há aquelas pessoas, aqueles encontros em que mais ou menos inesperadamente se revelam fiontes de vida. Estão muitas vezes em fases de renovação. Estão abertas á mudança, ou seja, neste momento unico em que vivemos, não conseguem nem querem ficar paradas. não resistem à intensidade das coisas. Falam das suas emoções! Emocionam-se, lembram coisas com verdade, lucidez, não fantasiam. querem aprender. São generosas, dão o seu afeto, o seu calor, o seu riso, a sua zanga, contam histórias, a transparência é coisa urgente.
por estas pessoas que entram na minha vida talvez empurradas pelo vento bravio das tempestades, por estas, eu sinto-me reviver com elas. acompanham-me todo o dia no meu pensamento. são parte essencial do meu prazer de viver.
depois, os becos sem saída: umas vezes enternecem-me, outras entristecem-me, deprimem-me, outras estimulam o meu interesse e prazer de mergulho, encanta-me os mistérios negros e cionzentos das suas vidas tão estranhas e barrocas. depende do momento.
Os becos sem saída querem falar a verdade que os seus corações pedem mas infelizmente não conseguem. estão mudas bem no fundo delas próprias. Querem falar mas não conseguem. ficam sérias, como uma superficie cinzenta de um lago imenso em que nada mexe, nada bule, nem uma filha de árvore existe por ali, a voar e a fazer mexer a água.
Alguns becos sem saída são secos, azedos, neles, nada cresce. Não dão dada a ninguém porque ninguém lhes deu nada (e esta pode ser a maior das tragédias, e ainda os faz, aos becos, sentirem-se culpados por não terem sido devidamente amados) a este becos tristes.
oh meu Deus, queria tanto sentar-te ao meu colo e contar-te uma pequena história de encantar. Gostava de ser tua avó por minutos e poder voltar atrás e desfazer esse nó de tristeza, de silêncio forçado.
Os becos sem saída engoliram demais porque os calaram sem dó nem piedade. e assim cresceram mudos e sós. Há muita solidão e silêncio nos becos sem saída. O pior de tudo é não poder falar, é não saber falar, é querer dizer o que se sente e ficar simplesmente calado. ou falar de coisas sem peso, coisas mortas, inúteis. Com tanto que havia para dizer!
e depois, na verdade, há muitas outras coias na vida, muitas outras combinações extraordinárias de pedaços de gente, de nós.
agradeço por ter tanta gente na minha vida que me ensina, que me comove, que me faz rir, que me dão o prazer imenso de de me contar as suas incríveis histórias que são fontes de inspiração absolutamente divina.
agosto escaldante este, em que tanta coisa muda. agosto intenso este, em que somos inundados de emoções nunca antes vividas com tanta lucidez.
O momento é eterno, a vida eterna. um abraço imenso, imenso, imenso, imenso ás pessoas que dizem adeus e se preparam para partir neste agosto implacável. ficam no nosso coração para sempre.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Boas recordações, faz uma lista de boas recordações da tua vida, diz inesperadamente a minha explicadora de estatística. fico a olhar para ela, e de repente sinto-me apanhada numa armadilha. Melhor, sinto-me apanhada como se tivesse sete anos e tivesse sido chamada ao quadro preto na escola pela professora má. Daquelas professoras que mandam em nós e nos apanham em falso, sem a lição sabida. esta, por exemplo, é uma das minhas memórias antigas mas não, não é uma memória feliz. Pertence, isso sim, á lista das memórias más e sobre esta lista teria muito a dizer, como por exemplo, sobre os efeitos do sadismo de certas professoras-mães-avós-madrinhas-meninas que fazem bullying (como agora se diz, e bem)- e outras mulheres que tal, que se divertem a aterrorizar crianças que sentem mais frágeis e desprotegidas. Ainda oiço hoje algumas destas vozes ácidas, que nos olham no fundo dos olhos para ver se encontram medos escondidos por onde possam entrar. E encontram. e espetam o dedo e fazem uma voz que nos arrepia, fria, autoritária, insuportavelmente esmagadora. Estas vozes não são de geração espontãnea. Estas mulheres cresceram a ouvi-las e repetem-nas, tal qual as ouviram. Também elas foram humilhadas do alto de mulheres com poder, das suas avós desalmadas, das suas mães enlouquecedoras, das suas professoras frustradas, das suas amigas crueis. Gostam de brincar ao poder com crianças porque é fácil humilhar crianças. Para vingar as nossas próprias humilhações. Ponto.
Vamos agora às memorias felizes. Começo a puxar por um fio e elas aparecem de repente do nada, eu que julgava que ia ser difícil lembrá-las. mas não, é fácil. E genuíno. Não é preciso inventar memórias felizes porque elas aparecem. Lembro-me de uma noite em que depois de jantar em casa da minha bisavó que tínhamos vindo visitar a Lisboa, me puseram a dormir num quarto ao lado da casa de jantar e eu, estranha na casa das cadeiras «douradas», cuja dona tinha já oitenta e muitos anos e falava com os «senhores» da televisão, que a conheciam, dizia ela, ligeiramente demente, ausente e muito doce, com o seu cabelo branco e olhar sonhador e perdido.
Adormeci neesa noite feliz como nunca. Não sei que idade teria mas lembro-me que adormeci enrolada em casacos e cobertores - era um sono de criança «improvisado», á espera que me levassem para casa mais tarde, quando os adultos na sala se cansassem da conversa.
Ouvia-os de longe, zonza de sono, conversar na mesa ainda posta, sem perceber nada do que diziam. Mas a cadência das palavras difusas, os risos e o tilintar dos pratos de sobremesa encheram-me de um conforto infinitamente feliz. Aquela familia, aquelas vozes em paz e em risos, davam-me uma segurança enorme. Olhei para o tecto onde se refletia a luz do corredor, aconcheguei-me nos cobertors da minha doce bisavó um pouco demente e ausente, e deixei-me ir, sossegada e feliz, para sonhos tranquilos.
Esta é uma das memórias mais felizes da minha vida. Uma noite, vozes e risos, a segurança da pertença ainda que fugaz, o conforto de poder adomecer em paz, sozinha mas acompanhada por dentro.
Depois, o Tramagal, a casa com jardim, patos e lago, as escadas para o sótão, a casa de banho de baixo, fresca, brilhante, onde tirávamos as sandálias sujas de terra do pinhal e lavávamos os pés pretos na água fria da torneira antes de ir almoçar. o quarto da minha avó, a cozinha cheia de luz. E felicidade infinita: a banheira branca no andar de cima, em frente á janela grande, o chão sempre morno, o banho de imersão sem tempo. Eterno. Uma coisa proibida em minha casa. Dezenas de anos depois ainda me vejo a dar um último mergulho na banheira antes de deitar uma olhadela para o pinhal. Imagem mágica que me leva para trás e que guardo como um tesouro.
Depois, o dia em que a Clara nasceu e eu tinha treze anos. Estava tão agitada que falava sozinha para o espelho. Tive medo da minha agitação, do meu contentamento excessivo que mais parecia uma crise de mania. Sabia que ia buscar um bebé ao hospital dentro de pouco tempo. Um bebé em casa, um bebé que eu até poderia ajudar a crescer, que me ia sorrir. A agitação era tanta que me fazia tremer. Meses depois, cheguei a casa um dia de tarde, e o bebé chorava inconsolável no colo da empregada. Tirei-lho dos braços e embalei a pequena, cabeça contra cabeça, junto á janela de onde se via o rio correr ao longe. Forjámos ali um pacto entre as duas. Ela acalmou-se, encostou-se a mim e os soluços foram parando. Fiquei contente porque consegui acalmá-la. Uf! esta criança confia em mim. Fizémos um silêncio cúmplice para sempre.
Percebi que podia continuar a escrever horas, meses, anos. o meu primeiro amor, os passeios nas praias desertas do Baleal, a minha primeira viagem para o estrangeiro, sozinha, conversas longas, as piadas da Teresa que me faziam rir até á lágrimas, mesmo nos momentos mais trágicos das nossas vidas. O nascimento dos meus filhos. A cara deles. as mãos pequeninas. os sorrisos. as palavras. O corpo quente do bebé e as mãos á volta do nosso pescoço.
Mil e uma histórias de amizade, os risos, a música, as conversas com o Nuno Fragoso e a nossa psicanálise caseira, em que jogamos ao «adivinha quem és», à descoberta «das tuas vicissitudes edipianas», ao «alimenta o meu narcisismo», ao «quem foge mais depressa da depressão», às «venturas e desventuras, esperança e desesperança, mágoas e alegrias da transferência», ás delicias «da capacidade imensa, eterna e omnipresnete da associação», ao «adivinha as minhas projecções», ao «faz de meu espelho», à «esperança e à fantasia que levam á loucura», à dureza «do teu princípio da realidade», ao identificar «dos nossos núcleos psicóticos» e a muitas outras, infinitas viagens ao fundo de nós próprios.
Ao almoço de sábado dos dinâmicos do frango e couscous. e a muitas outras coisas que aqui não cabem dizer porque, simplesmente, não há espaço.
Tudo isto chega para ser feliz? Não. Mas devia chegar, não? Sim, mas não chega.
Porquê? porque as memórias tristes também fazem uma falta imensa à nossa felicidade. Ajudam-nos a ir procurar as lágrimas congeladas, aquecê-las e fazê-las saltar dos olhos, o que não é coisa pouca - ficamos tão infinitamente mais leves! Nada mais delicioso que chorar uma perda, uma saudade, uma renúncia.
Não, renunciar é mesmo mau. Vai para além do suportável e é injusto.
Mas as memórias tristes são indispensáveis para a densidade. para a intensidade. para a possibilidade de estrutura. para o esforço da construção. para serem ultrapassadas, valorizadas, choradas. As memórias tristes casam bem com as memórias felizez, completam o puzzle complexo das nossas vidas.
E sim, também podemos rir delas, também. Rir é como dançar, faz-nos felizes.
sábado, 16 de junho de 2012
sábado, 26 de maio de 2012
SHUTTER ISLAND, a travessia de chumbo
shutter island
numa noite de inverno, no ano em que começou a mudança da minha vida, fui ao cinema com a minha amiga Ana Pimentel, a companheira amiga daquelas noites frias de novembro, em que o programa preferido era sentarmo-nos nas salas de cinema na sessão da noite, a mastigar discretamente picocas enquanto o filme corria, e nós no escuro, nas asas do sonho, a deixarmos o tempo correr e o filme entranhar-se lentamente, tinhamos o tempo todo do mundo, suspensas num tempo diferente, num tempo fora do tempo.
Boa companheira, a ana tem aquela qualidade maravilhosa que é o silêncio quando as imagens nos transcendem e a intensidade é tão densa que não há espaço para palavras. depois do cinema dirigiamo-nos lentamente ao café da esquina e bebíamos em silêncio uma cerveja gelada, as duas muito distantes dali, ainda dentro do filme. não havia lugar para palavras porque as palavras estragam as coisas fundas. Shutter island ficou para sempre dentro de mim e aquela ilha distante volta vezes sem conta aos meus sonhos, á minha vida. Fiquei para sempre presa naquela travessia sob um céu de chumbo e um mar escuro. Os dois homens a tremer de frio sob as gabardinas pesadas. ele fumava, inquieto, às medida que a o barco se aproximava da ilha, Aquela travessia, vim eu a perceber mais tarde, era na verdade a travessia que eu me preparava para fazer na minha vida naquele preciso momento. O barco era o mesmo que me levava ao lugar mais sombrio da minha vida, sob um céu de chumbo ao lugar onde vivia o mistério da minha natureza profunda, uma ilha de loucos, onde a verdade e a fantasia dramática viviam lado a lado, separadas por um fio de nylon, transparente, como o das canas de pesca. Foi lá que me revi, eu própria, perdida nos corredores labirínticos da ilha-prisão-manicómio, em que a verdade não era a verdade, e a mentira ficava para sempre por provar. Ali revivi os meus piores pesadelos, na duvida constante de procurar saber quem era eu afinal. Foi lá que me revi na tentativa de sobreviver á dúvida. tenho ou não tenho razão? Sonhei ou tenho razão, estava a imaginar ou afinal a realidade é esta mesma, que conheço?
A descoberta da gruta onde vivia a mulher em fuga, a mulher que sabia a verdade e que era a minha unica aliada naquele mundo de loucos, e que me dava razão. Foi ela que me fez perceber que afinal eu tinha razão e que não tinha sonhado. Foi ela que me ensinou a acreditar em mim, mesmo quando todos negavam a verdade. Ela tinha conseguido fugir da prisão infernal e tinha a coragem de viver em fuga mas em verdade.
Quando ele/eu foi apanhado e preparado para a lobotomia que o iria fazer conformar-se com o veredicto de louco e resignar-se a não fazer ondas, fumou o seu último cigarro em lucidez perfeita e encarou a a sua submissão à «normalidade» com imensa dignidade. Levantou-se, apagou o cigarro e dirigiu-se para a sala da cirurgia. Disse-lhe adeus em silêncio, entreguei-.lhe o meu coração e toda a minha solidariedade, e murmurei-lhe de longe: a verdade é só uma e eu estou do teu lado.
Quando mais tarde ele voltar da operação, pensei, o olhar vazio de quem perdeu a memória e já não sabe quem é, eu estarei lá, à sua espera e serei a única testemunha da sua razão. Não, não estavas a sonhar, não tiveste culpa, não, não estavas enganado. tinhas razão.
Depois de fazer a travessia no barco, e de confiar no meu único amigo que afinal me veio a trairm, a minha vida mudou para sempre. A verdade incomoda mas nunca, por nunca ser, deixa de ser a verdade. a verdade´e a nossa mais profunda liberdade. Neste tempo de tsunamis, mesmo quando tudo desmorona, a verdade é a nossa garantia de força, é a nossa âncora, é a nossa raiz que nos ancora ás profundezas da terra, planta perene e eterna, que nos segura ao fundo de nós próprios apesar da terra e do universo inteiro tremerem.
Ana pimentel, aquela noite em que fiz a travessia que me levou á ilha dos loucos resignados à mentira, aos que enlouquecerem para esquecer a verdade, eu vi pela primeira vez a luz da verdade e da esperança.
Este mar de prata, as Berlengas ao longe, o sol que cai por entre as nuvens são a mais maravilhosa promessa de verdade.
numa noite de inverno, no ano em que começou a mudança da minha vida, fui ao cinema com a minha amiga Ana Pimentel, a companheira amiga daquelas noites frias de novembro, em que o programa preferido era sentarmo-nos nas salas de cinema na sessão da noite, a mastigar discretamente picocas enquanto o filme corria, e nós no escuro, nas asas do sonho, a deixarmos o tempo correr e o filme entranhar-se lentamente, tinhamos o tempo todo do mundo, suspensas num tempo diferente, num tempo fora do tempo.
Boa companheira, a ana tem aquela qualidade maravilhosa que é o silêncio quando as imagens nos transcendem e a intensidade é tão densa que não há espaço para palavras. depois do cinema dirigiamo-nos lentamente ao café da esquina e bebíamos em silêncio uma cerveja gelada, as duas muito distantes dali, ainda dentro do filme. não havia lugar para palavras porque as palavras estragam as coisas fundas. Shutter island ficou para sempre dentro de mim e aquela ilha distante volta vezes sem conta aos meus sonhos, á minha vida. Fiquei para sempre presa naquela travessia sob um céu de chumbo e um mar escuro. Os dois homens a tremer de frio sob as gabardinas pesadas. ele fumava, inquieto, às medida que a o barco se aproximava da ilha, Aquela travessia, vim eu a perceber mais tarde, era na verdade a travessia que eu me preparava para fazer na minha vida naquele preciso momento. O barco era o mesmo que me levava ao lugar mais sombrio da minha vida, sob um céu de chumbo ao lugar onde vivia o mistério da minha natureza profunda, uma ilha de loucos, onde a verdade e a fantasia dramática viviam lado a lado, separadas por um fio de nylon, transparente, como o das canas de pesca. Foi lá que me revi, eu própria, perdida nos corredores labirínticos da ilha-prisão-manicómio, em que a verdade não era a verdade, e a mentira ficava para sempre por provar. Ali revivi os meus piores pesadelos, na duvida constante de procurar saber quem era eu afinal. Foi lá que me revi na tentativa de sobreviver á dúvida. tenho ou não tenho razão? Sonhei ou tenho razão, estava a imaginar ou afinal a realidade é esta mesma, que conheço?
A descoberta da gruta onde vivia a mulher em fuga, a mulher que sabia a verdade e que era a minha unica aliada naquele mundo de loucos, e que me dava razão. Foi ela que me fez perceber que afinal eu tinha razão e que não tinha sonhado. Foi ela que me ensinou a acreditar em mim, mesmo quando todos negavam a verdade. Ela tinha conseguido fugir da prisão infernal e tinha a coragem de viver em fuga mas em verdade.
Quando ele/eu foi apanhado e preparado para a lobotomia que o iria fazer conformar-se com o veredicto de louco e resignar-se a não fazer ondas, fumou o seu último cigarro em lucidez perfeita e encarou a a sua submissão à «normalidade» com imensa dignidade. Levantou-se, apagou o cigarro e dirigiu-se para a sala da cirurgia. Disse-lhe adeus em silêncio, entreguei-.lhe o meu coração e toda a minha solidariedade, e murmurei-lhe de longe: a verdade é só uma e eu estou do teu lado.
Quando mais tarde ele voltar da operação, pensei, o olhar vazio de quem perdeu a memória e já não sabe quem é, eu estarei lá, à sua espera e serei a única testemunha da sua razão. Não, não estavas a sonhar, não tiveste culpa, não, não estavas enganado. tinhas razão.
Depois de fazer a travessia no barco, e de confiar no meu único amigo que afinal me veio a trairm, a minha vida mudou para sempre. A verdade incomoda mas nunca, por nunca ser, deixa de ser a verdade. a verdade´e a nossa mais profunda liberdade. Neste tempo de tsunamis, mesmo quando tudo desmorona, a verdade é a nossa garantia de força, é a nossa âncora, é a nossa raiz que nos ancora ás profundezas da terra, planta perene e eterna, que nos segura ao fundo de nós próprios apesar da terra e do universo inteiro tremerem.
Ana pimentel, aquela noite em que fiz a travessia que me levou á ilha dos loucos resignados à mentira, aos que enlouquecerem para esquecer a verdade, eu vi pela primeira vez a luz da verdade e da esperança.
Este mar de prata, as Berlengas ao longe, o sol que cai por entre as nuvens são a mais maravilhosa promessa de verdade.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
um dia dos diabos e um anjo infeliz - parte 1
o Pedro e a Sónia já não moram na Estalagem Popular na Rua da Rosa. Disse-me o Vavá, o Álvaro «chefe máximo» da dita Estalagem. Qaundo subo as escadas escalavradas, forradas a linóleo podre e esfarrapado, ele espreita-me lá do cimo, desconfiado com a porta entreaberta do «escritório» em ruínas e informa-me que o casal deixou o quarto da estalagem mas deixarm lá toda a sua bagagem. Pergunto-lhe se sabe do contacto deles e ele diz-me que não, e adianta: «também não lhe vou dizer mais nada porque não sei quem a senhora é».Percebo, penso com os meus botões. Peço um papel para escrever umas palavras ao Pedro, pedindo-lhe desculpa pelo silêncio prolongado, por dentro soluço de remorsos - hoje é o dia de todas as identidficações tristes, parece que a Lua entrou em Escorpião de tarde - eu logo vi que havia lágrimas fundas e ressentimentos vindos da minha pré-história pessoal.
Enquanto eu e o Vává ensaiamos umas palavras, entre o desconfiado, o hostil e um impulso estranho de amizade súbita, entra um homem gasto, cabelos branco, boca que articula palavras estranhas, que fala sem parar mas que eu mal consigo ouvir. Do fundo da sala o Vává faz-me gestos com a mão, aponta para a cabeça e diz-me sem som: «é maluco, não ligue». Eu sorrio ao homem cinzento e teimosaente falador, digo qualquerr coisa, viro-me de costas e começo a escrever umas palavras num papel:« Querido Pedro, desculpe ter desaparecido sem aviso. Espero que você e a Sónia estejam bem...». Na sala desfeita entra um brasileiro também grisalho, a quem o Vavá acusa, assim do nada, de «não fazer nada, não procurar emprego e de passar o dia a dormir». o Homem fica zangado e responde-lhe torto. Por segundos tenho um pensamento negro: «e se estes dois começassem á pancada? e eu aqui, em pleno Bairro Alto, numa estalagem mais do que duvidosa, a escrever um bilhetinho enquanto dois matulões se pegam á estalada e quem sabe facada. hesito um bocado mas cntinuo a escrever, não tenho nada a perder. Esta é a sensação que me acomoanha todos os diss de há um tempo para cá e dá-me um sentimento de força e tranquilidade imensas: «não tenho nada a perder». Assim, continuo calmamente a escrever enquanto o brasileiroo sai da sala no momento em que pensei que ia tudo pelos ares.
O Váva explica-me que este homem «velho» e preguiçoso consome coca o tempo todo. Olho para ele e fico á espera de mais informações. A conversa interessa-me demais. Que lugar incrível. começo a gostar do Vavá que me vai contando que é angolano e que foi abandonado quando era criança, e que teve lutar pela vida porque ninguém o faria por ele. «Trabalho 24 horas por dia». Tem duas filhas a quem tem de sustentar, «coisa que ninguém fez por mim». é assim, não há outra coisa a fazer. «Não me vou matar, pois não?». Não Vavá, isso não.
Entra mais um grisalho na sala desfeita, a cheirar a alcool. «Olha o Maradona», diz o Vavá. «Também é psicólogo como a senhora, D. Ana». pergunto-me como saberá ele da psicologia -o pedro contou-lhe. Digo-lhe: «estou ainda a estudar». o Homem que cheira a alcool sorri. «Ele também é psicólogo», diz o Vavá. sim, sou, diz o homem, estou desempregado. Olho-o com atenção e ele começa a rir-se. Riem-se os dois de mim. «estávamos a brincar», dizem a rir. «Não sou nada disso».
O grisalho começa de repente a falar do Passos Coelho e da Finlãndia e da Dinamarca, e dos programas que passam na televisão. Outro louco. Dá-me para embirrar e ele irrita-se: «já vi que não atinge o que eu digo». O Váva defende-me: «Olha, a Dona Ana é boa pessoa, veio aqui porque se preocupa com as pessoas, cala-te Maradona».
Peço desculpa ao Maradona. Não sei porque raio de coisa, escorre-me uma lágrima pela cara, e outra, e outra. Estúpida. Ridícula. O que se passa? é da sala toda partida? é do escritório escuro e da televisão aos berros? é do brasileiro da coca? é do Martadona que cheira a alcool? O Vavá parece ouvir-me os pensamentos: «Dona Ana, sabe, o Maradona é um solitário, e o brasileiro da coca também». O Maradona, que «gastou todo o dinheiro que tinha», como me informou o Vavá uns minutos antes, salta da cadeira e aperta-me a mão: «sou solitário mas gostei de conversar consigo. preciso de conversar. você é um anjo da guarda».
As lágrimas caem como um rio mas não me importo. Eles também não, acham normal, não parecem estranhar. Prepararo-me para me despedir. Eu, um anjo? um anjo no call-center, a vender seguros de automóveis. Um anjo com telefone e computador, a explicar o custo de uma «cobertura GPS». Estranha forma de vida para um anjo que ao fikm do dia prega numa sala imunda na estalagem Popular no Bairro Alto, à rua da Rosa.
Os homens sorriem para mim: «prometa-me que volta, D. Ana,» sorri o Maradona, a segurar-me na mão. Do fundo da sala, sentado num sofá verde escuro todo rasgado, o «chefe máximo» da Estalagem Popular, sorri-me com um sorriso de ouro. «Volte, precisamos de conversar, esteja semopre à vontade, foi um prazer, saia da porta, entre outra vez na sala».
«tenho que me ir embora mas volto, vamos fazer um grupo de conversa». «Prometa», diz o Vavá, espero cá por si. Vou-me embora pela escada abaixo, qual anjo que foge com o coração a bater forte. Volto, grito da porta, obrigada, eu volto. Juro que volto. Volto, sim, vou-me sentar na sala caótica para conversar com os solitários da Estalagem. Vou aprender com eles, adoro histórias. Não resisto.
Na rua, olho para trás e vejo a ilha das Berlengas, o casario da ilha, o mar, a areia, o sonho, o ar transparente e a brisa que vem do mar. Volto, sim.
Enquanto eu e o Vává ensaiamos umas palavras, entre o desconfiado, o hostil e um impulso estranho de amizade súbita, entra um homem gasto, cabelos branco, boca que articula palavras estranhas, que fala sem parar mas que eu mal consigo ouvir. Do fundo da sala o Vává faz-me gestos com a mão, aponta para a cabeça e diz-me sem som: «é maluco, não ligue». Eu sorrio ao homem cinzento e teimosaente falador, digo qualquerr coisa, viro-me de costas e começo a escrever umas palavras num papel:« Querido Pedro, desculpe ter desaparecido sem aviso. Espero que você e a Sónia estejam bem...». Na sala desfeita entra um brasileiro também grisalho, a quem o Vavá acusa, assim do nada, de «não fazer nada, não procurar emprego e de passar o dia a dormir». o Homem fica zangado e responde-lhe torto. Por segundos tenho um pensamento negro: «e se estes dois começassem á pancada? e eu aqui, em pleno Bairro Alto, numa estalagem mais do que duvidosa, a escrever um bilhetinho enquanto dois matulões se pegam á estalada e quem sabe facada. hesito um bocado mas cntinuo a escrever, não tenho nada a perder. Esta é a sensação que me acomoanha todos os diss de há um tempo para cá e dá-me um sentimento de força e tranquilidade imensas: «não tenho nada a perder». Assim, continuo calmamente a escrever enquanto o brasileiroo sai da sala no momento em que pensei que ia tudo pelos ares.
O Váva explica-me que este homem «velho» e preguiçoso consome coca o tempo todo. Olho para ele e fico á espera de mais informações. A conversa interessa-me demais. Que lugar incrível. começo a gostar do Vavá que me vai contando que é angolano e que foi abandonado quando era criança, e que teve lutar pela vida porque ninguém o faria por ele. «Trabalho 24 horas por dia». Tem duas filhas a quem tem de sustentar, «coisa que ninguém fez por mim». é assim, não há outra coisa a fazer. «Não me vou matar, pois não?». Não Vavá, isso não.
Entra mais um grisalho na sala desfeita, a cheirar a alcool. «Olha o Maradona», diz o Vavá. «Também é psicólogo como a senhora, D. Ana». pergunto-me como saberá ele da psicologia -o pedro contou-lhe. Digo-lhe: «estou ainda a estudar». o Homem que cheira a alcool sorri. «Ele também é psicólogo», diz o Vavá. sim, sou, diz o homem, estou desempregado. Olho-o com atenção e ele começa a rir-se. Riem-se os dois de mim. «estávamos a brincar», dizem a rir. «Não sou nada disso».
O grisalho começa de repente a falar do Passos Coelho e da Finlãndia e da Dinamarca, e dos programas que passam na televisão. Outro louco. Dá-me para embirrar e ele irrita-se: «já vi que não atinge o que eu digo». O Váva defende-me: «Olha, a Dona Ana é boa pessoa, veio aqui porque se preocupa com as pessoas, cala-te Maradona».
Peço desculpa ao Maradona. Não sei porque raio de coisa, escorre-me uma lágrima pela cara, e outra, e outra. Estúpida. Ridícula. O que se passa? é da sala toda partida? é do escritório escuro e da televisão aos berros? é do brasileiro da coca? é do Martadona que cheira a alcool? O Vavá parece ouvir-me os pensamentos: «Dona Ana, sabe, o Maradona é um solitário, e o brasileiro da coca também». O Maradona, que «gastou todo o dinheiro que tinha», como me informou o Vavá uns minutos antes, salta da cadeira e aperta-me a mão: «sou solitário mas gostei de conversar consigo. preciso de conversar. você é um anjo da guarda».
As lágrimas caem como um rio mas não me importo. Eles também não, acham normal, não parecem estranhar. Prepararo-me para me despedir. Eu, um anjo? um anjo no call-center, a vender seguros de automóveis. Um anjo com telefone e computador, a explicar o custo de uma «cobertura GPS». Estranha forma de vida para um anjo que ao fikm do dia prega numa sala imunda na estalagem Popular no Bairro Alto, à rua da Rosa.
Os homens sorriem para mim: «prometa-me que volta, D. Ana,» sorri o Maradona, a segurar-me na mão. Do fundo da sala, sentado num sofá verde escuro todo rasgado, o «chefe máximo» da Estalagem Popular, sorri-me com um sorriso de ouro. «Volte, precisamos de conversar, esteja semopre à vontade, foi um prazer, saia da porta, entre outra vez na sala».
«tenho que me ir embora mas volto, vamos fazer um grupo de conversa». «Prometa», diz o Vavá, espero cá por si. Vou-me embora pela escada abaixo, qual anjo que foge com o coração a bater forte. Volto, grito da porta, obrigada, eu volto. Juro que volto. Volto, sim, vou-me sentar na sala caótica para conversar com os solitários da Estalagem. Vou aprender com eles, adoro histórias. Não resisto.
Na rua, olho para trás e vejo a ilha das Berlengas, o casario da ilha, o mar, a areia, o sonho, o ar transparente e a brisa que vem do mar. Volto, sim.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Quantos mares tens na tua vida?
hoje falava com uma amiga sobre Baleal e Tavira, dois lugares que dividem a minha vida ao meio, no bom sentido, claro. Dividir no sentido de separar duas épocas, duas fases, dois ciclos. O primeiro deles cabe todo no Baleal e nele vivem memórias que são as minhas fundações. Naquele tempo (como vem no Antigo ou Novo Testamento, não sei bem)... naquele tempo viviamos em Santarém, uma espécie de Texas europeu do século XIII, uma mistura bizarra entre memórias medievais, igrejas romanas e góticas, e touros, campinos, patilhas, touradas e capotes à Alentejana (e não à ribatejana como seria de esperar), bailes de garagem com mini e maxi saias, a Abidis onde ensaiavamos a nossa vida social, eu a morrer de timidez, com camisolas de lã feitas á mão pela minha mãe, mais os bailes de Carnaval no Clube, o terror de ficar sentada toda a noite sem que ninguém me viesse buscar para dançar, a cara a escaldar depois de um slow, a excitação do twist nas festas de anos só com raparigas, as noites húmidas e frias nas ruas de São Bento a jogar às escondidas, o episódio triste do livro do padre Amaro. Coisas de mãe que se preocupa e que delata - sem maldade e na maior inocência - os meus mais íntimos segredos às minhas amigas - e a tragédia do tanque dos Themudos, em que fui acusada de ser queixinhas, um trauma que me perseguiu muitos anos. Subi a encosta do monte a correr, os cabelos a pingar a água do tanque, sufocada de desgosto, deixando para trás a «piscina» pintada de azul com a água transparente que chispava por entre as árvores à medida que eu me afastava.
Quando chegava o mês de Agosto, trocávamos Santarém em chamas pelo mar do Baleal em fúria e pelas intermináveis nortadas que nos punham literalmente os cabelos em pé. Acampávamos numas casinhas alugadas, felizes da vida. Um dia convidei uma amiga engraçada, que jamais havia pernoitado em tão precárias condições, e que nos olhou entre o aterrorizado e o dó, e nos disse com voz de mel: «são tão engraçadas estas casinhas de pobrezinhos, são tão patuscas». Estragou o ambiente, a dita cuja. Também fiquei dividida e baralhada como ela, por um lado um bocadinho humilhada (casinhas de pobres?), por outro com vontade de a meter na primeira camioneta para Lisboa. Mas era difícil e escusado explicar-lhe o nosso fervor pelas casinhas «de pobres». Era dificil explicar porque era tão bom andar descalça todo o dia e chegar ao fikm do mês de Agosto com a pele dura na sola do pé. Também não era fácil entusiasmá-la pelo prazer de ouvir o roncar das avionetas no céu azul depois do almoço, ou sentar-me nos bancos de pedra em frente ao mar, de andar em cima dos chorões, de passear quilómetros nas Pedras Muitas, de me deitar na areia fria da praia pelas nove horas da manhã. Um milhão de coisas pouco óbvias para poder explicar porque gostava tantio delas, e muito em particular demonstrar os efeitos do feitiço tremendo de um mar selvagem de muitos verdes por entre as rochas, rochedos e nas poças à beira mar, onde um dia uma das crianças Ortigão se ia afogando porque foi descendo o pequeno abismo com passinhos suaves sem que a mãe se apercebesse do perigo da transparência traiçoeira. O menino foi pescado por uma alma benevolente enquanto a mãe dizia «ai!».
O mar sempre ali tão perto. O núcleo duro de mim está ali.
Muitos anos depois, foi Tavira, uma explosão de calor e de luz. Atravessámos o Algarve para almoçarmos em casa de uns amigos, no meio das figueiras. Quando pus o pé no chão, assim que chegámos, e senti o calor sufocante na cara, jurei voltar sempre. O sonho das noites abafadas. Tomar banho á noite na água escura e morna, tomar banho de dia na água transparente e quente. A minha mãe telefonou-me e disse: «estou de casaco comprido de Inverno, aqui no Baleal, porque esta noite arrefeceu». E eu, do outro lado do fio: «não consigo respirar com este calor, as noites deitam fumo como as fogueiras...». E se eu vestisse o meu casaco de Inverno num Agosto de 40 graus em Tavira?
Tavira linda, brilha de dia e de noite, atravessamos a ria de barco ás nove da noite, de volta a casa, depois de nos arrastarmos todo o dia nos toldos uns dos outros, feitos com lençois que trazemos de Lisboa. Este ano as areias mudaram e na maré baixa a ria está seca, atravessa-se a pé. Só enche na maré cheia, e mesmo assim encontro trilhos no fundo e passo para o outro lado com água pela cintura. Acabaram-se os barqueiros, sou eu agora que conduzo a minha vida. Exagero, não é bem assim mas quase. Eu e o barqueiro andamos de braço dado por entre os pântanos de lodo preto, os caranguejos saem de todo o lado. Por segundos tenho medo, acho que vou gritar, mas já não há volta a dar. Andar em frente e depressa. O barqueiro sorri-me de longe. Decidiu ficar para trás.
Tavira é como um coração enorme, generoso, o seu céu é demasiado azul, o sol incendeia tudo. Cem igrejas e muita música. Os meus amigos, as nossas tardes, as noites, as manhãs tranquilas. As conversas intermináveis dentro e fora de água. Em Tavira, neste segundo ciclo da minha vida, fiquei mais perto de mim por várias razões. E ficar mais perto de mim, é isso mesmo: é estar mais perto do fundo, voltar ao mar ali tão perto, é reencontrar o meu lado «atlântico», mais «rochoso», é voltar a sonhar com algas, vento e falangetas de dinossauro arrancadas às falésias com milhões de anos.
No Baleal, a água é a da alma inquieta. Em Tavira, a água é a do útero, onde voltamos para dormir uma sesta tranquila.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
Vespas e grupanálise
no fundo do corredor abri uma porta e ouvi um barulho estranho; um zumbido? pode ser um zumbido? dentro de casa? na janela as vespas «acotovelavam-se», para cima e para baixo, a falarem daquela maneira arrepiante, sussurrada, afiada. Pensei voltar para trás mas o meu lado que sonha com perigos e confrontos, para mostrar não sei bem a quem de que sou capaz de coisas difíceis, e também ,porque não? uma pontinha de sadismo e destrutividade, fez-me voltar atrás e tirar um sapato, naquele quarto do fim do mundo, teias de areias e luz filtrada pela sombra escura das vespas. atirei-me a elas com raiva e com medo. E quando comecei a vê-las cair no chão, fiquei...não sei..... grande vitória a minha, vespas perigosas esmagadas no chão.
Voltei para trás e entrei no corredor enorme, pensei que vejo o mundo de dentro de uma casa, que é a minha casa, o meu mundo e a minha história. Há casas, não todas, que mexem comigo e me levam para trás, de repente, e esta tomou conta de mim rapidamente. Senti a sua tristeza densa, com um passado imenso dentro daquelas paredes, uma casa que se desmorona e que leva consigo toneladas de vidas passadas, uma casa que se esboroa, plena de silêncio e tristeza. Nos corredores moram ideias, memórias, lagrimas, riosos, esperanças e tudo. Acho que chamam por mim. Não me importo. A manhã começou mal, acordámos talvez todos entranhados daquelas memorias tristes coladas ás paredes dos quartos - que parecem ter mil anos e contudo dir-se-ia que ainda ontem foram usados, as camas e os cobertores parecem ter sido mexidos. Embirrar uns com os outros logo de manhã é delicioso. Promete. E assim, de hora a hora o tom sobe, e o ar carrega-se. Saímos, entramos, voltamos a sair, inventamos mil pretxtos para não discutir mas ao cair da noite, basta um mal-entendido e a casa explode. Cada um traz os seus medos, acusações, amarguras. Cada um conta a sua história e há ameaças extremas no ar. De repente, naquela fortaleza longe do mundo, sentados numa sala dourada e um piano caladissimo, atiramo-nos uns aos outros e eu, a grande passiva que assassinou mil vespas hás umas horas, voltei a deixar subir a fera que dormita, a mesma que pegou no sapato por nmedo e rauiva, e acuso. Acusar é bom porque me dá uma sensação de fazer justiça enfim, de ajustar contas tão antigas que nada têm a ver com o que ali se discute. Com todos, acontece o mesmo. para cima da mesa trazemos razões fúteis mas as nossas mágoas antigas fazem de nós crianças grandes. E por isso gritámos todos fúrias e loucuras talvez por terms dormindo num acasa moribunda. A sua morte anunciada acorda os nossos medos. Projecção, diriam os meus profs. Adoro esta palavra, uma projecção é como um espelho gigante, enorme, que trazemos dentro de nós, e que nos reflecte uns aos outros, que nos obriga a vermos o nosso pior lado no outro. Esse outro, que é apenas um pobre espelho, acaba por pagar por isso sem saber muito bem porquê.
Mas o melhor chegou, enfim. O rebentar dos medos limpou o ar. Ficámos de repente muitos juntos e felizes, ou pelo menos tão perto da felicidade quanto se pode estar numa casa-fortaleza que nem sequer está perto do mar mas no meio do alentejo distante. Um dia quero passar uma noite na fortaleza das Berlengas para sentir o que é o vento bravo na cara. Para ver o mundo através dos barulho do mar. Um dia quero fazer grupanálise em pleno oceano sóp para ver até onde nos leva a fúria das ondas. Um dia querto ver se o afecto renasce depois das mais duras tempestades, fechados na fortaleza. De manhã, a água à volta dela vai estar transparente até quilómetros de profundidade. Debruço-me na janela de pedra e vejo-me nesse espelho sem fundo. Só para ver o que acontece.
Voltei para trás e entrei no corredor enorme, pensei que vejo o mundo de dentro de uma casa, que é a minha casa, o meu mundo e a minha história. Há casas, não todas, que mexem comigo e me levam para trás, de repente, e esta tomou conta de mim rapidamente. Senti a sua tristeza densa, com um passado imenso dentro daquelas paredes, uma casa que se desmorona e que leva consigo toneladas de vidas passadas, uma casa que se esboroa, plena de silêncio e tristeza. Nos corredores moram ideias, memórias, lagrimas, riosos, esperanças e tudo. Acho que chamam por mim. Não me importo. A manhã começou mal, acordámos talvez todos entranhados daquelas memorias tristes coladas ás paredes dos quartos - que parecem ter mil anos e contudo dir-se-ia que ainda ontem foram usados, as camas e os cobertores parecem ter sido mexidos. Embirrar uns com os outros logo de manhã é delicioso. Promete. E assim, de hora a hora o tom sobe, e o ar carrega-se. Saímos, entramos, voltamos a sair, inventamos mil pretxtos para não discutir mas ao cair da noite, basta um mal-entendido e a casa explode. Cada um traz os seus medos, acusações, amarguras. Cada um conta a sua história e há ameaças extremas no ar. De repente, naquela fortaleza longe do mundo, sentados numa sala dourada e um piano caladissimo, atiramo-nos uns aos outros e eu, a grande passiva que assassinou mil vespas hás umas horas, voltei a deixar subir a fera que dormita, a mesma que pegou no sapato por nmedo e rauiva, e acuso. Acusar é bom porque me dá uma sensação de fazer justiça enfim, de ajustar contas tão antigas que nada têm a ver com o que ali se discute. Com todos, acontece o mesmo. para cima da mesa trazemos razões fúteis mas as nossas mágoas antigas fazem de nós crianças grandes. E por isso gritámos todos fúrias e loucuras talvez por terms dormindo num acasa moribunda. A sua morte anunciada acorda os nossos medos. Projecção, diriam os meus profs. Adoro esta palavra, uma projecção é como um espelho gigante, enorme, que trazemos dentro de nós, e que nos reflecte uns aos outros, que nos obriga a vermos o nosso pior lado no outro. Esse outro, que é apenas um pobre espelho, acaba por pagar por isso sem saber muito bem porquê.
Mas o melhor chegou, enfim. O rebentar dos medos limpou o ar. Ficámos de repente muitos juntos e felizes, ou pelo menos tão perto da felicidade quanto se pode estar numa casa-fortaleza que nem sequer está perto do mar mas no meio do alentejo distante. Um dia quero passar uma noite na fortaleza das Berlengas para sentir o que é o vento bravo na cara. Para ver o mundo através dos barulho do mar. Um dia quero fazer grupanálise em pleno oceano sóp para ver até onde nos leva a fúria das ondas. Um dia querto ver se o afecto renasce depois das mais duras tempestades, fechados na fortaleza. De manhã, a água à volta dela vai estar transparente até quilómetros de profundidade. Debruço-me na janela de pedra e vejo-me nesse espelho sem fundo. Só para ver o que acontece.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
a cada virar do berço segue-se um novo ciclo.
muitos anos ouvi uma história sobre mim, que a minha mãe contava alegremente, totalmente alheia ao facto de eu me sentir aterrorizada com a sua alegre narrativa. Claro que as mães, coitadas, principalmente as mães dos anos 50/60, não faziam a mais pequena ideia do que era psicologia, quanto mais psicanálise. Nem queriam saber, aliás. Naquela altura ser intelectual era um insulto, saber mais do que de panelas e criadas era, diria, uma verdaderira provocação ao pudor, ao recato, ao bom senso, á tranquilidade das tardes amenas passadas na cavaqueira antiga e despreocupada num mundo que desapareceu. Era um mundo tão tranquilo que se ouviam as moscas e as abelhas a esvoaçar preguiçosas, a bater nos candeeiros. Pois esse velho meteorito morreu para sempre e eu acho que vale a pena a aventura da sua morte, apesar dos incómodos perpétuos que causa. Porque é intenso este mundo. Complexo, rico, imenso, polémico, feroz, injusto, violento, vingativo, frio e cruel. mas eu adoro este raio deste mundo. O que eu gosto disto. Em cinquenta (e poucos...) anos, vivi cem. Nem mais. E pensar que foi por acaso que sobrevivi, o que eu teria perdido se assim não fosse. Assim, a história que me apavorava - não quer dizer que fosse apavorante - contava que na noite do meu nascimento, estando eu a dormir num berço alto, muito antigo, como se calcula, algures num estranho e bizarro hospital de Abrantes - ímagino mal esse lugar distante mas penso imensas vezes que era mal iluminado e pintado de branco sujo, já amarelado, e nos cantos havia baldes com gazes sujas e coisas horriveis assim do género. Pois a minha mãe dormia o sono dos justos nesse lugar escuro em que esvoaçavam morcegos pela certa, e a m inha querida avó cuidada do meu sono leve, ainda mal abada de nascer, ao que parece muito feia, revelou-me solicita, a minha mãe, que é franca e honesta, e não gosta de mentir. A maioria das vezes, digamos. Pois eu era feia mas por sorte «fiquei bonita» - que sorte, meu deus! - ao contrário das minhas irmãs, coitadinhas, «mais feiinhas». Nunca recuperaram do encarquilhamento do parto. Mãe, viva a honestidade, sim senhora, assim é que é.
Portanto, estava eu a dormir o sono de passarinho frágil acabado de arrancar às entranhas da mother, arrancar de uma forma, diga-se de passagem, inquietantemente moderna para a altura. Quer dizer, de cesariana feita com epidural. Naquela Abrantes do fim do mundo faziam-se cesarianas com epidural há mais de duzentos anos, imaginem. Com o maior sucesso. Que estranho!!!!!! um médico muito á frente do seu tempo, pegou numa agulha e enfiou-a nas costas da minha mãe e assim a anestesiou. E eu fui rapidamente sacada das trevas.
Dormia eu portanto, o sono dos recém-chegados quando terei emitido um gemido. E a minha avó que me cuidava e velava, lançou a mão ao berço para me embalar. Mas...azar, estava escuro, o pé do berço era altissimo e leve e assim ela sem querer virou-me o berço ao contrário, e eu caí da altura de metros, «por sorte», diz a minha mãe com ar satisfeito, enrolada em muitos cobertores porque era inverno. e em Abrantes quase neva. Parece que foram os cobertores que me salvaram.
esta queda infernal entranhou-se em mim, não sei como foi, estas coisas do psiquismo são inafalíveis. Acho que várias vezes me despenhei, como um padrão na minha vida que não muda. Não deixa de ser excitante.
a cada virar do berço segue-se um novo ciclo. estou, no momento, talvez no chão, enrolada por sorte num mionte de cobertores quentinhos. a preparar-me para levantar voo outra vez.
Assim, quando olho para esta fotografia aérea do baleal, sinto uma vertigem, um calafrio de felicidade. É assim como uma promessa de queda, mas de queda no azul do mar, do céu, do mundo. é voltar às origens, como se despenhasse de um berço incomodo e me atirasse no azul da eternidade. Querido mar.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
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